A tentação e o risco das zonas-tampão
Os romanos chamavam-lhes limes. Os britânicos chamavam-lhes protetorados. Os soviéticos chamavam-lhes zonas de influência. Benjamin Netanyahu chama-lhes zonas-tampão. Os nomes mudam, os mapas alteram-se, os impérios sobem e caem, mas a ideia permanece surpreendentemente constante: quando um poder deixa de confiar na diplomacia, procura segurança na geografia. É essa lógica que parece dominar cada vez mais a estratégia israelita após o trauma de 7 de outubro de 2023.
Durante décadas, Netanyahu apresentou-se como o homem que compreendia melhor do que ninguém as ameaças existenciais que cercavam Israel. Construiu a sua carreira política em torno da promessa de que a vigilância permanente, a superioridade militar e a capacidade de antecipação seriam suficientes para impedir qualquer ameaça à sobrevivência do Estado judaico.
A História, porém, tem um sentido de ironia particularmente cruel. O maior ataque sofrido por Israel em gerações aconteceu precisamente sob a liderança do político que mais fez da segurança a sua marca pessoal.
Desde então, Netanyahu governa como um homem perseguido por esse fracasso. A guerra em Gaza começou como uma resposta militar ao Hamas. Transformou-se numa campanha regional. E ameaça agora converter-se numa tentativa de redesenhar o próprio mapa do Médio Oriente.
É neste contexto que surgem as chamadas zonas-tampão. A expressão parece quase burocrática. Evoca prudência, prevenção, contenção. Mas a linguagem estratégica tem frequentemente o hábito de suavizar realidades mais duras. Uma zona-tampão é, na prática, território controlado por quem não pretende abandoná-lo tão cedo. Em Gaza, essa realidade tornou-se cada vez mais visível através dos corredores militares, das áreas interditas, das zonas de exclusão e da........
