menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O carro que a Europa não entende, movido a uma planta

17 0
09.09.2026

Há uma coisa que quase nenhum europeu compreende quando visita o Brasil e para numa bomba de gasolina. Ao lado da gasolina, há outro depósito, com um líquido que move milhões de carros e que não vem de nenhum poço de petróleo, vem de uma planta que cresce ao sol, a cana-de-açúcar. E há uma segunda coisa que o deixa ainda mais perplexo, a maioria dos carros brasileiros escolhe, no momento de abastecer, se quer gasolina ou álcool, conforme o preço do dia. Chamam-se flex, existem desde 2003, quando a Volkswagen lançou o primeiro, e são hoje a norma esmagadora, mais de oito em cada dez carros vendidos no país. O Brasil resolveu, há mais de duas décadas, e por caminhos que começaram há meio século, um problema que a Europa ainda hoje debate como se fosse novo, o de mover automóveis sem depender só do petróleo.

Escrevo sobre isto porque o Brasil acaba de dar mais um passo nessa direção, e porque a reação europeia a essa aposta revela uma hipocrisia que vale a pena expor com números.

Comecemos pelo facto novo. O Governo brasileiro criou um programa, o Mover, que redesenhou o imposto sobre os automóveis segundo um critério simples, quanto mais limpo e eficiente o carro, menos imposto paga. Os elétricos beneficiam, sim, mas beneficiam também, e é aqui que está a novidade, os carros movidos a etanol e os híbridos flex, enquanto os movidos só a gasolina passam a pagar mais. No estado de São Paulo, o maior mercado do país, foi-se ainda mais longe, os híbridos flex a etanol têm isenções que nem os elétricos puros têm. Reparem na diferença de filosofia. Enquanto a Europa apostou todas as fichas numa só tecnologia, o carro elétrico, e proibiu de facto todas as outras a partir de 2035, o Brasil fez o contrário, abriu o leque, premiou várias soluções limpas e deixou o mercado e o consumidor escolherem entre elas.

É a diferença entre quem aposta tudo num número da roleta e quem distribui as fichas com juízo. E há uma humildade tecnológica nisto que à Europa faria bem, a de não decretar antecipadamente qual será a tecnologia vencedora, porque a história está cheia de apostas oficiais que o futuro desmentiu.

Um pormenor que ilustra bem a dimensão desta opção nacional, mesmo o brasileiro........

© Observador