menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Viagens por prodígios de água

22 0
11.07.2026

Há imagens que não se limitam a esclarecer o que já sabemos, mas instauram um segundo horizonte, secreto, onde o mundo se oferece como enigma e promessa. Um fulgor no céu, o curso de uma onda, o rasto de um animal sobre a areia podem converter‑se em sinais de uma escrita anterior à palavra, em hieróglifos de um sentido que não se deixa capturar pela lógica discursiva. A dimensão poética da imagem reside precisamente nesta capacidade de rasgar o tecido do quotidiano e de insinuar, sob o contorno das coisas, um excesso de significação que obriga o olhar a aprender outra gramática, mais próxima do silêncio, do espanto, da contemplação.

Os símbolos que emergem dessa leitura do real não são simples abstrações; são figuras vivas, carregadas de tempo, que ligam a cadência dos dias à respiração da eternidade. Uma corrente que roda sobre si mesma pode ser biblioteca, um fragmento de concha pode tornar‑se livro, uma pequena criatura que caminha para o mar pode tornar‑se parábola do destino: tudo depende da disposição de quem lê. O símbolo é, assim, o ponto em que o visível se dobra sobre o invisível, em que a vida concreta se revela atravessada por uma música mais funda, que se deixa ouvir apenas a quem consente em ler o mundo como tecedura de metáforas, como manuscrito líquido, manuscrito de areia, manuscrito de luz.

Quando o mestre Ibn ʿArabī, de Múrcia, no ano 590 da Hégira e 1139 dos cristãos, fazia uma peregrinação pela costa do Oceano Atlântico em companhia de um homem que negava os prodígios dos santos, surpreendeu-os subitamente a ambos um minarete construído no céu por uma revoada de gaivotas.........

© Observador