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O ano da peste e a cavalgada das palavras

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05.09.2026

No ano de 1348, em Girona, no bairro judeu, a morte negra quase reduziu uma comunidade inteira a cinza, silêncio e memória. Os judeus lavavam as mãos antes de comer, entoavam as suas preces e continuavam a estudar, como sempre haviam feito. Por enquanto, a peste poupava-os. Talvez não por milagre, talvez não por eleição, mas pela obstinação dos pequenos gestos: a água sobre a pele, o pão repartido, a letra repetida, a bênção de boca em boca como uma brasa protegida do vento.

Lá fora, porém, nos bairros próximos do rio, despontavam manchas azuladas na pele, e os olhos ardiam sob o vaivém da febre. A peste dançava a sua dança errática e faminta: entrava e saía das casas, sem cuidar de quem ali dormia, de quem tinha amado, trabalhado, esperado. Os cadáveres eram queimados em campo aberto; as moedas, lançadas aos ribeiros; os animais, encerrados nos currais. Nas igrejas, o incenso elevava barreiras inúteis, perfumes frágeis contra um ar que parecia ter enlouquecido.

Quando o medo não encontra explicação, procura um rosto. E escolhe quase sempre aquele que aprendera a desprezar. Culpar judeus é um hábito tão antigo quanto a ignorância que o alimenta. Ao cabo de meses longos e tensos, a multidão, conduzida por monges de olhar turvo e pela suspeita de que os hebreus envenenavam os poços, precipitar-se-ia contra eles com machados, enxadas e pedras. Não precisava de provas: bastava-lhe uma história suficientemente cruel para fazer esquecer a própria impotência.

O mestre ferreiro rabi Meir Hamishpat, alto, zarolho e já cansado de escutar as mesmas calúnias, costumava observar que, se aqueles homens lavassem as mãos como os judeus, diminuiriam muito o mal. Mas não queriam ouvi-lo. O desprezo era maior do que o discernimento, e o medo, quando se torna multidão, prefere destruir uma voz a escutar a sua verdade.

Nessa tarde, Meir Hamishpat iria com dois dos seus discípulos mais queridos à torre em ruínas onde se reuniam para ler e recitar os salmos. O pretexto para saírem da cidade consistia em mudar as ferraduras dos novos cavalos do conde Ruy Miracle. Os bois começavam a ser retirados dos campos, enquanto a relha de ferro dos arados abria terras junto dos limites da floresta. Em seu lugar empregavam-se cavalos, e isso trazia mais trabalho ao rabi-ferreiro, mas também uma modesta liberdade: a liberdade de circular, de transportar ferramentas, livros e palavras entre um lugar........

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