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Espelho e meta: a mitificação da Europa na cultura

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23.01.2026

A visão da Europa assume dimensões várias de significação que têm funcionado para nós como palco, espelho, meta, mito e utopia. No processo histórico de afirmação, Portugal independente procurou no palco da Europa, em primeiro lugar, esse reconhecimento no quadro do xadrez de poder em jogo, primeiro, da parte do papado e, depois, das diferentes potências nas diferentes épocas e contextos históricos. Como espelho funcionou também a Europa para Portugal, onde este se via e revia nos momentos de glória e de crise: ora para se comparar, distinguir e diferenciar, ora para concluir que tinha perdido o brilho do passado em que se convenceu que estava na vanguarda do continente/civilização de que fazia parte. Com o crepúsculo da Idade de ouro perdida e amplamente mitificada do tempo da Expansão Portuguesa, a leitura cultural através dos discursos reincidentes da decadência portuguesa, mais notórios a partir da época pombalina, promoveram uma poderosa mitificação da Europa, que se tornou uma espécie de horizonte utópico que Portugal devia perseguir para recuperar o tempo perdido e afinar o passo pelo ritmo do progresso. A Europa, ou melhor, uma Europa mitificada impõe-se, desde então, no imaginário como modelo e meta a atingir, sem nunca ser de facto alcançado.

A ideia de Europa fermentada no universo cultural português de mais de oito séculos de história está intrinsecamente ligada à confecção de uma ideia de Portugal, do reino ou da nação portuguesa.

A assunção do reino de Portugal no século XII emerge como resultado dos dinamismos e da geoestratégia da cristandade europeia e feudal, dirigida pela teocracia papal e empenhada em enxotar o domínio muçulmano para fora das suas fronteiras.

Portugal ergue-se, então, como um reino cristão autónomo a partir da década de 40 do século XII, desembaraçando-se da pertença vassálica a Castela. Ganhou a sua parcela do território ibérico, empurrando os mouros para o Norte de África. Em 1179, o Papa confirmou com a sua autoridade, ao mesmo tempo espiritual e temporal, a independência deste jovem reino, elogiando os seus sucessos bélicos contra os infiéis e o seu desempenho notável no alargamento das fronteiras da Cristandade, isto é, da Europa Cristã.

A batalha de Ourique, em 1139 (gravura da Sociedade Martins Sarmento, obtida na internet)

Na matriz fundacional deste país, o projecto militar e político é animado, legitimado e canonizado pelo religioso. A ideia ainda embrionária de nação surge envolvida de um certo messianismo político-religioso que marca paulatinamente a consciência colectiva. Esta tonalidade messiânica veio a ser, dois séculos mais tarde, legitimada por narrativas mitificantes que se espalharam, primeiro, oralmente e, depois, por escrito, as quais apresentavam o próprio Cristo a ungir o primeiro rei fundador da nação, D. Afonso Henriques, e a garantir o sucesso dos seus feitos militares e afirmação grandiloquente de Portugal no quadro das nações da Cristandade. Desenvolve-se, então, a ideia da fundação da nacionalidade em direito divino, que teria projectado teleologicamente Portugal para desempenhar uma missão de grande destaque no plano universal.

A Europa e os seus reinos feudais são vistos, nesta fase de primeiro engendramento lendário do mito das origens sacrais da nação, como o solo sagrado da Cristandade com quem Portugal precisa de arquitectar alianças e, ao mesmo tempo, de concorrer. E perante quem quer afirmar a sua diferença autonómica e até, mais tarde, diante de quem vai almejar assumir a primazia e a vanguarda, particularmente em relação à vizinha Espanha, em crescente expansão.

No século XIV, depois da plena consolidação das suas fronteiras e com a ascensão ao trono da dinastia de Avis na sequência da crise política de 1383-1385, Portugal passa incólume à séria tentativa de ser absorvido pelo reino de Castela. O país canta vitória e coloca no trono uma nova dinastia com um significativo apoio popular inaugurada pelo rei D. João I. Portugal entende-se, nesta nova etapa de consolidação da autonomia contra Espanha, pela pena do cronista Fernão Lopes e pela boca de vários pregadores católicos, como reino eleito e protegido pelos céus, detendo uma missão especial a realizar no seio da cristandade europeia, perante a qual fundamenta e advoga a sua primazia, insinuando o seu protagonismo na inauguração da utópica sétima idade da história humana. Os portugueses começam a entender-se como uma espécie de povo eleito da Nova Aliança, um novo Israel, destinado a esmagar os inimigos de Cristo.

Desta dinastia de Avis saiu a geração, cognominada Inclítica Geração, de reis e de príncipes que promoveram e lideraram a expansão portuguesa para além das fronteiras do continente europeu. Começaram por conquistar Ceuta em 1415, iniciando uma expansão no Norte de África que visava empurrar para longe as fronteiras do Islão. E logo a seguir iniciaram paralelamente em 1420, com a descoberta oficial da Ilha da Madeira, as suas viagens marítimas “por mares nunca de antes navegados” que os levariam a fundar potentados no contorno do litoral africano chegando à Índia e ao Extremo-Oriente, e passando pelo promissor Brasil. Estas viagens de descoberta........

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