Grande outra vez? O viés de memória que ameaça a democracia
Passo boa parte da minha vida a estudar a saúde das pessoas. E há uma coisa que aprendi a temer quando realizo questionários sobre saúde: a nossa memória engana-nos. Quando pedimos a alguém que recorde o passado, com muita frequência as respostas vêm maculadas por aquilo que hoje sente. Nós, investigadores, designamos isto por "viés de memória", e há mais de trinta anos que a literatura científica o documenta: a memória não apaga apenas, deforma, e fá-lo com direção, exagerando aquilo que nos convém recordar e apagando aquilo que preferimos esquecer.
Habituei-me a tentar combater este fantasma nos meus estudos, com questionários bem desenhados e métodos que o tentam neutralizar. Mas ultimamente pergunto-me se este fenómeno não terá saltado dos nossos inquéritos para a praça pública. E se a própria democracia estiver, hoje, a ser vítima de um viés de memória coletivo?
Quando penso nas gerações mais novas, percebo que o problema não é bem de memória. É de ausência dela. Quem nasceu em democracia nunca conheceu a PIDE, a censura, a guerra colonial, o medo de falar. Não tem uma recordação deformada desses tempos, simplesmente não tem recordação nenhuma. Para muitos, a ditadura é uma página do livro de história, tão distante como as invasões francesas.
Mas seria cómodo, e injusto, apontar apenas aos jovens. Também entre quem viveu esses anos o viés se instala. A memória vai-se esbatendo, idealizando, limando as arestas mais duras. Com o tempo, há quem recorde........
