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Zuenir não terminou

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22.09.2026

Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira, no Rio de Janeiro, aos 95 anos. Uma pneumonia silenciou o homem, não a voz. Ela permanece em cada página na qual o Brasil se viu sem maquiagem, mas também sem desespero. Zuenir sabia que a notícia mais dura poderia ser contada com delicadeza. Tinha a rara coragem de encarar o abismo sem perder a confiança nas pessoas.

Nascido em Além Paraíba, nas Geraes, Zuenir foi pintor de paredes, contínuo, faxineiro e balconista. Enquanto cursava Letras Neolatinas, tornou-se arquivista noturno da Tribuna da Imprensa. Em 1956, faltava à redação alguém que escrevesse sobre Albert Camus. Ofereceu-se. O texto abriu-lhe a porta: a do jornalismo.

Esses seus primeiros ofícios não diminuem sua biografia; ao contrário, revelam a matéria de que ela foi feita. O que torna um homem grande não é o primeiro crachá, mas aquilo que ele decide fazer com as mãos. Nesta despedida, ninguém precisará lembrar que Zuenir pintou paredes, foi contínuo, faxineiro e balconista.

Como jornalista, porém, Zuenir Ventura pintou um mundo em que a liberdade fazia-se tão essencial quanto o oxigênio que respiramos; seguiu contínuo na intermitência obstinada com que abraçava ideais pacifistas; permaneceu faxineiro ao limpar das crônicas as areias do tempo, trazendo-lhe frescor de novos tempos, devolvendo-lhes incontáveis sopros de vida. E, como Octavio Malta, também posso imaginá-lo respondendo a uma pergunta dessas que só São Pedro para fazer: “Não me vendi.”

E essa certidão vale mais que qualquer epitáfio.

Uma bolsa levou-o ao Centre de Formation des Journalistes, em Paris. De volta, foi editor internacional do Correio da Manhã, diretor de Fatos & Fotos, chefe de reportagem de O Cruzeiro e editor-chefe de Visão. Passou ainda por Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo. Era formador. Ensinava sem humilhar, corrigia sem esmagar, ouvia antes de decidir.

Ele dizia: “Nós não somos juízes ou promotores, mas testemunhas de nosso tempo.” Eis uma definição ética do ofício: ver, apurar, compreender e contar. Lição aprendida, lição vivida.

1968, o ano que não terminou

Zuenir conheceu a ditadura também por dentro de uma cela. Depois do AI-5, ele e Mary foram presos. Ela ficou detida cerca de um mês; ele, três. Dessa experiência não fez pedestal nem vingança. Fez memória.

O título contém uma das grandes intuições de nossa literatura política. Um ano termina no calendário, mas pode continuar agindo nos subterrâneos de uma nação. Em Zuenir, 1968 não aparece como álbum de juventude. É experiência contraditória: coragem e ilusão, festa e medo. Ao narrar a morte de Edson Luís, a Passeata dos Cem Mil, o espetáculo de Roda Viva e a violência que desembocaria no AI-5, ele não empilha acontecimentos.........

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