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O Brasil que já não se escuta

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04.09.2026

Por conta dos últimos acontecimentos, tornou-se difícil acompanhar a política brasileira sem reconhecer uma sensação de inquietação que atravessa o debate público. O cenário parece impor um diagnóstico incômodo: há algo profundamente fora do lugar na forma como o país tem vivido seus conflitos políticos. Talvez a imagem mais perturbadora esteja justamente no Supremo Tribunal Federal.

A crise que hoje envolve os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça não é apenas mais um episódio de divergência entre autoridades públicas. Ela revela algo maior: o momento em que o conflito político, depois de atravessar partidos, eleições, redes sociais, famílias e instituições, chega ao próprio lugar que deveria funcionar como um dos principais espaços de arbitragem dos conflitos democráticos.

Quando a disputa deixa de estar apenas entre adversários políticos e passa a envolver os próprios árbitros institucionais, a pergunta já não é somente quem tem razão. A pergunta passa a ser outra, muito mais incômoda: quem ainda é capaz de mediar o conflito? Desde o fim da disputa estruturante entre PT e PSDB e a ascensão de uma política marcada pela negação da própria política, acompanhar o Brasil tornou-se um exercício estranho.

Em meio a uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, já não é simples distinguir o que pertence ao roteiro mirabolante de uma série política e o que, de fato, ocorre diante dos nossos olhos. Os fatos se acumulam no ritmo de uma montanha-russa, rápidos demais até para serem plenamente compreendidos. A atual crise no STF acrescentou uma camada nova a esse processo.

As divergências entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, que ganharam nova dimensão a partir das investigações envolvendo o Banco Master e das acusações relacionadas à condução desses procedimentos, expõem uma tensão que ultrapassa a simples discordância jurídica. De um lado, há questionamentos sobre a atuação de Mendonça na condução das investigações. De outro, há questionamentos sobre fatos envolvendo Moraes e suas relações com pessoas alcançadas pelas investigações.O presidente do Supremo, Edson Fachin, foi colocado no centro institucional desse conflito ao receber pedidos e determinar esclarecimentos dos envolvidos. É importante não transformar acusações em condenações. A gravidade do episódio está justamente em outra coisa: a confiança institucional passa a ser disputada dentro da própria instituição. Para quem acompanha a política brasileira, talvez seja esse o aspecto mais inquietante do momento.

Não se trata apenas de uma disputa sobre decisões, interpretações jurídicas ou posições divergentes dentro de um colegiado. Quando ministros de uma mesma Corte passam a questionar publicamente a atuação um do outro e o próprio funcionamento de procedimentos conduzidos no âmbito do Tribunal, a crise deixa de ser apenas um conflito entre pessoas e passa a produzir efeitos sobre a percepção pública da instituição.

É impossível negar que, para quem estuda e gosta de política, o momento é intelectualmente extraordinário. Há ali um ambiente raro de análise: conflitos, tensões institucionais, disputas narrativas, rearranjos de poder e inúmeras possibilidades de construção de cenários. Qualquer cientista político reconheceria nesse quadro um campo fértil para reflexão. Mas essa fertilidade analítica não traz alívio.

Ao contrário, reforça o desconforto de observar uma crise que produz conhecimento ao mesmo tempo que aprofunda feridas sociais e amplia a sensação de que as próprias instituições que deveriam administrar os conflitos estão sendo progressivamente absorvidas por eles. A sensação que acompanha esse processo aproxima-se da inquietação de um médico diante de um paciente que chega ao hospital com sinais de um trauma complexo.

Não se trata de um corte superficial, daqueles que podem ser rapidamente limpos e suturados; tampouco........

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