O Estado reconhece o adoecimento, mas terceiriza o cuidado
Não é de hoje que a saúde mental no Brasil vem sendo tratada como assunto de fé e de valores familiares. Há dois anos, analisando uma ação local em Mato Grosso, perguntei até quando o Estado transferiria às igrejas e às famílias uma responsabilidade que é sua. Nesse tempo que se passou, algo mudou, mas não na direção esperada. O Estado reconheceu, em norma trabalhista, que a organização do trabalho pode adoecer. Ao mesmo tempo, mantém canais de financiamento para comunidades terapêuticas, enquanto a rede pública permanece pressionada, e deixa parte da procura por cuidado migrar para sistemas conversacionais privados. Um exemplo é o debate sobre o fim da escala 6×1: discutimos a jornada que adoece, mas seguimos empurrando para o indivíduo a conta de se recuperar.
É possível identificar ao menos quatro vias pelas quais esse movimento de terceirização do cuidado se desdobra. Primeiro, o familismo, que transfere o........
