Entre o tango e a maresia: um sul-americano sem pátria na Copa do Mundo
Entre o tango e a maresia: um sul-americano sem pátria na Copa do Mundo
POR VALENTINO CABANILLAS KMENTT*
Cheguei a Fortaleza com apenas onze meses de vida, engatinhando entre as malas de uma viagem que definiria o meu destino. Fui criado sob o sol do Ceará, aprendendo a andar nas calçadas quentes do Nordeste, me naturalizando no papel e na alma, construindo nesta terra as minhas memórias mais profundas, meus primeiros amigos, meus amores e toda a arquitetura da minha existência.
Cresci habitando um território invisível, um entre-lugar de afetos e linguagens: navegava entre o castelhano falado dentro de casa e o português cantado nas ruas; entre o aroma do mate e o cheiro da maresia; entre o tango e o forró. Filho de pai brasileiro e mãe argentina, eu trazia no sangue duas geografias que só o futebol permitia separar. Durante décadas, movido por uma inconsciente necessidade de inclusão, busquei me fazer apenas cearense, empurrando a minha argentinidade para as sombras do subconsciente.
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Eu não sabia, mas nascia ali a minha vocação para a abolição das fronteiras. Eu sempre fui um utópico. Carrego o sonho teimoso, romântico e anarquista dos amantes da liberdade: a ilusão bonita de um mundo sem cercas nem alfândegas morais, onde a América Latina não é uma colcha de retalhos dividida por geopolíticos, mas uma pátria grande, dolorida e indivisível.
Escrevo hoje porque uma dor transbordou. Escrevo do centro de uma dupla decepção. Sou metade argentino e metade brasileiro, e assisto aos dois povos que formam a minha própria carne se guerrearem de forma covarde nas redes virtuais. E o que é infinitamente pior: vejo pilares ideológicos que defendi a vida inteira desmoronarem sob o peso de uma máquina implacável de desinformação, ressentimento e ódio fabricado.
No princípio, o futebol era uma linguagem secreta que nos permitia falar sem tradutores. O samba e o tango conversavam de chuteiras. O drible brasileiro e a garra argentina eram duas formas irmãs de desobedecer à gravidade e ao destino. Uma rivalidade entre irmãos que se olhavam no espelho e se reconheciam, mesmo quando rangiam os dentes.
Nesta última Copa, a bola de certa forma voltou a sorrir em castelhano. Em sua campanha a Argentina não jogou apenas para vencer; jogou para lembrar quem era. Homens que pareciam carregar no peito a alma de um povo ferido pela economia e surrado pelas crises, correndo como se cada passe fosse o último pão da mesa, refundando a esperança em um canto só. Era o futebol em estado puro: pernas de vento, coração na boca e a teimosia de não se render jamais. Uma beleza de fazer chorar até os deuses neutros.
Assistimos, pela última vez no grande palco do mundo, à dança sagrada de Lionel Messi.
Ver um jogador que atingiu o que parecia inalcançável — um gênio absoluto que caminhana mesma altura mítica de Pelé e Diego — orquestrar sua última sinfonia foi um privilégio poético. Messi não corria apenas contra os adversários; corria contra o tempo, carregando nas costas a responsabilidade de dar alegria a........
