Trezentas mil casas e meia dúzia de fantasmas
Publiquei na semana passada um plano para construir trezentas mil casas na Grande Lisboa e no Grande Porto em dez anos. As reações dividiram-se em duas. Umas discutem o plano. Outras discutem fantasmas: a especulação, os fundos, os estrangeiros, o preço justo. Trato dos fantasmas primeiro, porque são eles que governam a política de habitação há dez anos.
Primeiro, o número que ninguém contesta. O Banco de Portugal estimou em junho que, na última década, a construção ficou cerca de 300 mil casas atrás do número de famílias. Entre 2016 e 2025 concluíram-se em Portugal 172 mil casas novas, 16 mil por milhão de habitantes. A Irlanda fez 45 mil por milhão no mesmo período e a Polónia 54 mil. Se tivéssemos construído ao ritmo polaco, teríamos 570 mil casas novas e não haveria buraco. Em 2002 concluímos 126 mil num só ano. Deixámos de fazer o que sabíamos fazer, e os preços dizem-no: subiram 17,6% em 2025, a maior subida de sempre, e no segundo trimestre deste ano ainda subiam 16,5%, a maior da União Europeia.
Agora os fantasmas. Os fundos: no fim de 2023, a habitação era 3,5% dos imóveis que os fundos imobiliários tinham arrendados, segundo o Tribunal de Contas. Os estrangeiros: em 2025, 95% das casas vendidas em Portugal........
