Teodoro e os fantasmas de Santa Apolónia
O Professor Teodoro Ramalho tinha um encontro marcado no café de Santa Apolónia. As estações sempre lhe pareceram lugares metafísicos. Talvez porque ninguém esteja verdadeiramente nelas. Estamos sempre a chegar ou a partir. O presente, numa estação, é apenas o intervalo entre duas coisas.
Sentou-se junto à janela. Lá fora, os carris brilhavam sob a luz baça da tarde. Havia passageiros a arrastar malas, abraços demorados, pequenos gestos de impaciência, e pessoas já ausentes.
Teodoro acendeu o Montecristo. Trazia o Fedora e a bengala Rosewood. Parecia um homem em permanente desencontro com o seu próprio século. Talvez por isso já carregasse consigo alguns fantasmas.
Lev Nikoláievitch chegou primeiro. Teodoro viu-o entrar sem surpresa. Era assim que aconteciam certas coisas quando se tinha chegado a uma idade em que a realidade já não merecia a confiança que tivera na juventude.
Tolstói sentou-se diante dele. Durante algum tempo nenhum dos dois falou.
Um comboio entrou na estação. A máquina aproximou-se com uma espécie de majestade pesada, metálica, inevitável. Não tinha pressa. Tinha força.
— É curioso — disse. — Inventámos máquinas para........
