Eduarda Campopiano é uma de nós? Ainda há sororidade possível diante do ódio?
“Nenhuma mulher morre por ser mulher.” Foi o que disse Eduarda Campopiano ao defender que o feminicídio seria uma “armadilha semântica”, afirmando que uma mulher morre porque o namorado não aceitou o fim do relacionamento, porque o homem descobriu uma traição ou por qualquer outra circunstância que, em sua visão, nada teria a ver com o fato de aquela vítima ser mulher.
O problema é que os próprios exemplos utilizados por Eduarda para negar a existência do feminicídio ajudam a explicar exatamente por que ele existe, porque quando um homem acredita que pode matar uma mulher por ela ter terminado uma relação, por ter escolhido outro parceiro, por ter exercido sua sexualidade, por ter recusado continuar ao seu lado ou simplesmente por ter dito não, estamos diante de uma estrutura de poder que historicamente ensinou homens a enxergar mulheres como propriedade e ensinou mulheres a confundir controle com cuidado, ciúme com amor e posse com afeto.
Foi justamente por isso que o feminicídio precisou ser nomeado, porque nomear uma violência significa permitir que ela deixe de ser tratada como uma sucessão de tragédias privadas e passe a ser compreendida como parte de uma estrutura social que produz vítimas reiteradamente. A legislação brasileira não exige que um assassino declare que matou uma mulher por ela ser mulher, porque o que importa é compreender as circunstâncias em que aquela morte ocorreu, especialmente quando existe violência doméstica, familiar, menosprezo ou discriminação relacionados à condição feminina.
Os números mostram que não estamos discutindo uma abstração criada por feministas, mas uma realidade concreta que atravessa o país e destrói famílias diariamente. Mulheres continuam sendo assassinadas por companheiros e ex-companheiros, muitas vezes depois de tentarem terminar relacionamentos, reconstruir suas vidas ou simplesmente exercer a liberdade que deveria pertencer a qualquer pessoa.
É exatamente por isso que as palavras importam tanto, porque embora palavras não empunhem armas, não apertem gatilhos e não desfiram golpes, elas ajudam a construir o imaginário que determina aquilo que uma sociedade reconhece como violência e aquilo que decide naturalizar. Quando uma liderança política afirma que o feminicídio não existe, contribui para a construção de um ambiente em que o controle pode continuar sendo chamado de ciúme, a perseguição pode ser romantizada, a posse pode ser........
