A tentação pós-liberal contra a democracia
Há épocas em que a História parece dobrar-se sobre si mesma, não para aprender com o passado, mas para reivindicar os fantasmas que julgávamos exorcizados. O século XXI oferece esse espetáculo perturbador. Quando as democracias liberais pareciam consolidadas, o terreno começou a mover-se sob os seus próprios fundamentos. A democracia liberal, essa engenharia política que reconcilia liberdade individual, pluralismo moral e limitação do poder, encontra-se hoje sob cerco. A ofensiva não parte da esquerda revolucionária, nem de utopias niveladoras, mas da própria direita, que se reclama “pós-liberal”. Sob um verniz filosófico e uma retórica do “bem comum”, articula-se um projeto de restauração autoritária que promete regenerar o Ocidente ao preço de mutilar a sua liberdade.
O pós-liberalismo surge como diagnóstico e profecia: o liberalismo teria falhado porque triunfou, corroendo os vínculos comunitários que o sustentavam. Teria libertado o indivíduo até ao isolamento, exaltado o mercado até à mercantilização total da vida, dissolvido a fé e a tradição até à fragmentação moral. A cura, segundo Patrick J. Deneen, Yoram Hazony ou Adrian Vermeule, exige refundar o Estado, disciplinar o mercado e reeducar a sociedade. A promessa é moral: restaurar o sentido, devolver pertença, recuperar a unidade perdida. A consequência é política: limitar o pluralismo, circunscrever a liberdade e substituir o debate público pela catequese patriótica.
Por trás do moralismo regenerador esconde-se o ressentimento de uma época desorientada. As desigualdades acentuadas com o capitalismo global, a volatilidade identitária e o cansaço cívico tornaram as democracias vulneráveis à nostalgia. O pós-liberalismo oferece-lhe roupagem metafísica: a nação como corpo ferido que precisa de cura; a tradição como âncora sagrada; o líder como intérprete da vontade coletiva. O raciocínio é circular, o povo precisa de quem o salve em nome do povo, e desemboca na teologia política do homem providencial. Sob a aparência de uma teoria sofisticada, o pós-liberalismo ressuscita um imaginário de pureza e hierarquia: a aldeia homogénea contra a cidade cosmopolita, a fé ancestral contra a dúvida moderna, o “nós” imaculado contra o “eles” corruptor.
Trata-se, na essência, de uma rebelião contra a própria modernidade. O projeto de Iluminismo, confiança na razão crítica, tolerância, dignidade humana como universal concreto, é denunciado como fonte de decadência. O pós-liberalismo despreza o pensamento lógico-racional, prefere a intuição, a emoção e o mito. O “realismo moral” de Hazony ou o comunitarismo teológico de Vermeule convertem-se em instrumentos de deslegitimação da racionalidade secular. A política já não é arte do compromisso, mas cruzada espiritual. É aí que a fronteira entre filosofia conservadora e fervor autoritário se dissolve: onde o argumento cede à fé e a pluralidade (logos da democracia) é substituída pela sacralização da identidade.
A simbiose com o populismo é inevitável. Ambos partem da ficção de um povo uno e indivisível, traído pelas elites cosmopolitas e degeneradas. Ambos cultivam o ressentimento como capital político. Ambos prometem “recuperar o controlo”, uma fórmula que mascara o seu desejo de submeter. O populismo fornece o impulso plebeu e emocional; o pós-liberalismo oferece-lhe a justificação intelectual e a aura de legitimidade moral. Da conjunção nasce uma ideologia da obediência: o Estado protetor transforma-se em tutor espiritual; a soberania popular torna-se instrumento de domínio simbólico.
O ataque à democracia liberal não se faz, por isso, em nome da tirania, mas da virtude. O pluralismo é denunciado como relativismo; a liberdade, como decadência; o debate, como fraqueza. A “democracia conservadora” de Hazony seria uma versão moralmente purificada da liberdade, guiada por um núcleo religioso e nacional irredutível. Mas o que se anuncia como renascimento é, de facto, uma regressão: a substituição da cidadania crítica por fidelidade moral, da deliberação pública por unanimidade ritual. É a velha tentação do poder forte apresentada como resposta à insegurança de sociedades complexas.
O que se anuncia como renascimento é, de facto, uma regressão: a substituição da cidadania crítica por fidelidade moral, da deliberação pública por unanimidade ritual
Partilhar no Facebook
A nova retórica pós-liberal investe contra as “elites progressistas” e a “hegemonia woke”, mas pouco tem de original. É o eco das culpas projetadas de uma modernidade cansada de si própria. O inimigo já não é apenas o mercado, mas a liberdade que não se conforma. Deneen enaltece os amish como paradigma político; outros reivindicam uma economia “cívica” gerida por corporações e comunidades religiosas. A economia de mercado é substituída por um corporativismo paternalista que recorda os arranjos do século XX, quando a democracia era privilégio de poucos e o consenso se impunha pelo medo.
O perigo é subtil porque o discurso pós-liberal recorre à linguagem da pertença, palavra sedutora num tempo de isolamento. O cidadão desencantado com a tecnocracia liberal vê-se convidado a regressar ao abrigo da comunidade moral. Mas o preço implícito é a renúncia à autonomia. A liberdade é “reembalada” como fonte de desordem; a razão crítica, como ameaça à coesão; o dissenso, como sintoma de degeneração. Assim se prepara o terreno para os novos autoritarismos, que não precisam de ditadores com uniforme: basta-lhes a domesticação dos desencantados e a abdicação voluntária da dúvida.
A erosão da liberdade raramente começa com proibições. Inicia-se no elogio da certeza, na intolerância à ambiguidade, no apelo à segurança moral. O pós-liberalismo floresce precisamente nesse terreno, oferecendo o conforto da pertença às almas fatigadas pela contingência democrática. Substitui a incerteza pela verdade revelada, o conflito legítimo pela harmonia imposta. O mundo que propõe é limpo, ordenado, previsível: cada qual no seu lugar, cada crença na sua tradição, cada diferença sob vigilância. É a utopia regressiva de todos os autoritarismos.
Não tenhamos ilusões. A história, contudo, ensina o que a nostalgia esquece: a comunidade idealizada do passado foi também comunidade de exclusão. A aldeia harmoniosa ocultava a repressão dos dissidentes, o silêncio das mulheres, o exílio dos que não se conformavam. O retorno a esse mundo de “purezas” perdidas não é reencontro, é apagamento. O que a democracia liberal, com todos os seus defeitos, conquistou foi precisamente o direito à diferença e o espaço da crítica. A liberdade moderna não nos promete consolo; oferece-nos inquietação. Mas é nessa inquietação — essa tensão entre autonomia e convivência — que reside a dignidade democrática.
A história ensina o que a nostalgia esquece: a comunidade idealizada do passado foi também comunidade de exclusão. A aldeia harmoniosa ocultava a repressão dos dissidentes, o silêncio das mulheres, o exílio dos que não se conformavam
Partilhar no Facebook
O desafio do nosso tempo não é depor o liberalismo, mas resgatar o seu núcleo vital: a aposta na razão pública, a modéstia perante o poder, a coragem de viver entre discordâncias. Reformar não é regressar; é aprofundar a promessa de pluralismo que o próprio liberalismo frequentemente traiu. Sem essa renovação moral e institucional, o campo ficará aberto à retórica salvífica dos que confundem comunhão com servidão.
O pós-liberalismo apresenta-se como remédio, mas é sintoma: é o espelho onde se reflete o cansaço das democracias. A sua força vem das nossas fragilidades, do medo de perder o sentido num mundo fragmentado. Mas é precisamente quando tudo parece incerto que se deve desconfiar dos que oferecem certezas absolutas. O futuro da liberdade dependerá de sabermos preferir a dificuldade de pensar à facilidade de crer, de recusar a ilusão de um passado restaurado para continuar a construir, pacientemente, a morada comum do dissentimento civilizado.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
