O futebol, o Ronaldo e a metáfora explicativa
Assistimos nos últimos dias, e em todas as suas dimensões, ao extraordinário caso Ronaldo (alguns classificaram-no de “Ronaldogate”). A análise deste caso, recorrendo a instrumentos meramente objectivos e racionais, será sempre algo incompleta e redutora. Para estes casos, de certa maneira “irracionais”, apaixonantes, que saem fora das categorias normais do certo e do errado, do bem e do mal, do desejável e do indesejável… nada melhor que a metáfora para preencher o espaço onde a razão pura esbarra no indizível. Enquanto a lógica, o bom senso e a mera razão tentam dissecar o caso, separando-o em partes inteligíveis e explicáveis, a metáfora faz o oposto: ela conecta, invoca, eleva e aponta a universos distantes para criar uma verdade que não se explica, sente-se.
A razão constrói o tapete de relva e as bancadas; a metáfora abre a porta e convida-nos a entrar, a habitar o estádio e a sentir o cheiro da relva. É uma ponte poética que traduz o abstrato, teórico, material… em algo palpável, transformando a complexidade da experiência humana (como o amor, a dor, o êxito, o fracasso, o abandono, ou a própria consciência) em imagens que o nosso coração de adepto reconhece de imediato.
Eis então, uma pequena metáfora… que nos ajuda a compreender que o futebol não é uma mera modalidade desportiva; o futebol é um facto social total!
O jogador é um corredor nato. O folclore diz que o jogador tem de correr, o fado… Vai então numa correria cantada e arrebatada, o jogador; o seu jeito é arte e dom, é vocação e comunhão. Ele corre, ataca e simula, a vida, a morte… e a sorte! Ele chora, implora, chega ao fim e sorri… a alegria, a fantasia. O jogador é uma mistura de coisas acesas, inflamadas; ele é portador do engenho e sedução. O jogador é um ser variante, versátil, alterável; ele tem o ofício do jeito, do engano e da paixão.
O jogador aparenta o espanto, mas é um simulador fingidor… brilhante! É esse o seu engodo, o seu encanto e atracção, e as gentes celebram e aplaudem a proeza da destreza, a glória, e a vitória. As gentes ansiosas e solitárias,........
