Antes da revisão constitucional
Confesso que há um conforto intelectualmente sedutor, e politicamente simples, em culpar a Constituição por todos os males de que o País sofre ou, por outro lado, em agradecer à Lei Fundamental por vivermos nesta espécie de paraíso na Terra, que, na verdade, mais não é que uma aldrabice contada por quem construiu boa parte da História das últimas décadas e pretende que o seu legado seja incontestado e inscrito numa pedra. Ambos os lados estão errados, na medida do respectivo exagero.
É verdade que nem os constituintes, nem a esquerda parlamentar sabem bem que Constituição querem defender, quando o texto original levou já tantas revisões, sobretudo as de 1982 e 1989. O PCP, de resto, não desejou eleições para a Assembleia Constituinte, nem para coisa nenhuma; desagradou-lhe, depois, o seu resultado e acabou a patrocinar-lhe um grotesco cerco. Idem para o Bloco de Esquerda, a cara do esquerdismo anti-democrático e anti-parlamentar que o século XXI lavou. E ao PS agradam todos os textos na estrita medida em que sobreviveu a todas as revisões, porque nelas participou, bem sabendo que nenhuma delas lhe alterava o pressuposto de que a construção constitucional do pós-1976, sendo uma espécie de meia via entre o terceiro-mundismo e a Europa, consagrava o resultado do 25 de Novembro, isto é, que o PS era o regime e que o socialismo, mais ou menos dirigista, mais ou menos colectivizado, era o único caminho possível. Tudo isso deixou, naturalmente, as suas marcas. O País tem hoje uma Constituição que não o impede de ser melhor do que é, mesmo mais livre do que é. Mas a marca ficou lá: a Constituição mantém, além de muita letra morta, marcas ideológicas........
