União Europeia & Associados
Na passada quarta-feira, no discurso sobre o estado da União Europeia, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs que o Canadá se tornasse o primeiro membro associado da UE. Mark Carney, o primeiro-ministro canadiano, não se deixou ficar atrás e, no dia seguinte, no seu discurso ao Parlamento Europeu, expressou a sua vontade de aprofundar os laços com a UE, transformando a relação numa “aliança para o futuro”, abrindo a porta para o Canadá se tornar o primeiro membro associado da UE. O namoro foi rapidamente interrompido pelo presidente americano, que ameaçou impor novas e mais graves tarifas, ou até mesmo suspender as relações comerciais com a UE, se considerasse que o acordo tivesse sido feito com “intenções hostis” (o que exatamente Donald Trump entende por intenções hostis, ninguém sabe; com toda a probabilidade, nem o próprio). Mas nem o Canadá nem a UE cederam à coerção americana.
Talvez tenha escapado a Trump a ironia da sua resposta. A aproximação entre o Canadá e a UE tem como base a vontade partilhada de diversificar parcerias e reduzir a dependência dos EUA. Cada nova ameaça feita pelo presidente americano apenas reforça a necessidade de cooperação entre Ottawa e Bruxelas, tornando esta aliança ainda mais premente.
Mas, mais do que uma resposta a uma ameaça concreta, os discursos de Von der Leyen e Carney mostram uma visão para o futuro ancorada na já famosa expressão que Carney cunhou em Davos: uma aliança de potências médias. E a proposta de von der Leyen parece apontar para uma visão deste género, na qual a própria UE assumiria a liderança de uma aliança de potências médias. Mas, para isso, o bloco terá de se saber reinventar e adaptar às realidades em constante mutação (algo que historicamente não foi o seu ponto forte). A estrutura rígida e lenta da UE precisa de ser reformada e a aliança deve abraçar o modelo de integração em círculos concêntricos que permita à UE integrar mais países na esfera europeia. As declarações de Roberta Metsola sobre a possibilidade de a Austrália e a Nova Zelândia se juntarem também como membros associados parecem indicar que, de facto, este é o caminho que a UE pretende traçar.
E este é o grande perigo para os EUA, por mais que Trump não o queira levar a sério. Numa economia global em que os EUA ocupam o lugar central da maioria das redes comerciais, financeiras, militares e tecnológicas, são os seus aliados ocidentais, nomeadamente a UE, que têm maior capacidade de reduzir a centralidade americana, construindo alternativas credíveis a partir de dentro do próprio sistema.
Uma primeira pergunta que paira sobre toda esta questão é exatamente em que consiste o estatuto de membro associado. O termo em si não é uma invenção de Von der Leyen e tem já uma longa história no contexto europeu. Remonta pelo menos a 1989, quando Michael Mertes e Norbert J. Prill propuseram uma Comunidade Europeia a várias velocidades, na qual os Estados que não conseguissem ou não quisessem integrar-se plenamente seriam........
