O novo equilíbrio de poder na Venezuela após janeiro de 2026
Em 3 de janeiro de 2026, não ocorreu uma transição democrática clássica na Venezuela. Uma operação militar estrangeira resultou na captura de Nicolás Maduro e redesenhou o equilíbrio de poder no país.
Desde então, em poucas semanas, o governo de Delcy Rodríguez libertou presos políticos, aprovou uma lei de amnistia e iniciou negociações económicas com os Estados Unidos. Medidas como estas foram publicamente elogiadas pelo presidente norte-americano, Donald Trump.
Tudo aconteceu com uma rapidez que dificulta falar apenas em evolução ideológica. O que parece existir é um novo equilíbrio político.
Mas a questão central não é se as mudanças são positivas ou negativas.
A questão é: quem garante que Delcy poderá implementá-las?
Se amanhã um sector do chavismo (civil, político ou militar) entender que estas reformas traem o projecto original, o conflito deixará de ser entre governo e oposição tradicional e passará a ser uma disputa interna dentro do próprio bloco que governou o país nas últimas décadas.
E é aqui que surge o verdadeiro problema de poder.
A quem recorrerá Delcy para se manter?
Cuba dificilmente assumirá o custo político de defender um governo que procura cooperação aberta com Washington. China e Rússia, por sua vez, actuam segundo cálculos estratégicos próprios; não existem sinais de que tenham intervindo para alterar o desenlace de janeiro e nada indica que o fariam num eventual conflito interno venezuelano.
O único actor com capacidade real de dissuasão externa continua a ser os Estados Unidos.
Um dado recente ilustra bem a natureza pragmática deste novo enquadramento internacional. No discurso sobre o Estado da União, Donald Trump convidou e saudou publicamente Enrique Márquez, opositor venezuelano recentemente libertado e que nas últimas eleições presidenciais foi candidato com o apoio do Partido Comunista da Venezuela.
O facto de a actual administração norte-americana se mostrar disposta a dialogar simultaneamente com uma liderança proveniente do chavismo e com um dirigente associado ao comunismo venezuelano sugere que o critério dominante não é ideológico, mas estratégico.
Durante anos, qualquer dissidência interna no chavismo podia ser neutralizada com acusações de estar ao serviço de interesses externos. Mas se uma fracção do próprio sistema se opuser ao rumo actual, essa retórica perde eficácia. Não é fácil qualificar como “agentes externos” aqueles que contestem o poder quando a estabilidade do equilíbrio vigente depende também de relações com potências estrangeiras.
A oposição tradicional tampouco controla este processo. A mudança de janeiro não foi produto da sua força política nem da sua estratégia. Ocorreu sem ela e, até ao momento, também sem a sua liderança clara.
Dito de forma directa: Delcy Rodríguez governa num cenário que existe porque Washington decidiu tolerar esse equilíbrio. E, se enfrentasse uma rebelião interna, provavelmente dependeria de que esse contexto externo se mantivesse.
A paradoxo histórico é difícil de ignorar: o movimento político que consolidou o seu poder denunciando repetidamente a ingerência externa pode acabar por depender dela para sobreviver às suas próprias divisões internas.
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