O ódio dos que falam em discurso de ódio
Há alguns meses, o activista Mamadou Ba deu uma grande entrevista ao jornal Público, na qual, logo de entrada, falou nas ameaças e no ódio de que foi vítima em Portugal, ocorrências que puseram em perigo a sua segurança física e a tranquilidade e sossego da sua família e dos seus amigos mais próximos. O activista referiu episódios concretos e apontou o dedo ao partido PNR e a skinheads, lamentando que os outros partidos políticos, incluindo o Bloco de Esquerda, em que ele próprio militava, o tivessem, nessa época, abandonado à sua sorte. Mamadou Ba referiu o desgaste causado pela sensação de perigo iminente, e o cansaço que a protecção policial, de que acabaria por beneficiar durante cinco meses, lhe provocaram. Falou também dos insultos que ouviu nas ruas e em esplanadas, do medo que sentiu e que o fez, por três vezes, mudar de residência, e das implicações em termos de saúde mental que tudo isso teve para si e para os que lhe são chegados. A propósito do chamado “discurso de ódio” queixou-se em particular dos agentes das forças de segurança, e considerou que o ódio aos não-brancos nas polícias portuguesas é muito antigo e “uma herança colonial”.
É absolutamente condenável que tais coisas lhe tivessem acontecido. As pessoas devem poder exprimir os seus pensamentos sem serem coagidas ou ameaçadas. Mas, dito isto, é surpreendente que Mamadou Ba não tenha, ao que parece, consciência de que um dos promotores do ódio foi ele mesmo. Não o conheço pessoalmente, mas fui seguindo, como toda a gente, as suas declarações e intervenções no espaço público, desde a famosa “bosta da bófia” à não menos famosa “necessidade de matar o homem branco”. Durante uns tempos acompanhei de forma bastante atenta a sua página de Facebook, que tinha milhares de seguidores — 15 mil, segundo contas recentes —, e o alto nível de agressividade e de verdadeiro ódio que aí demonstrava não oferecem dúvidas.
O que Mamadou Ba escreveu sobre mim daria para fazer vários artigos, mas o activista distribuiu insultos e raiva profusamente em seu redor. De Susana Garcia, por exemplo, disse ser “uma tipa desonesta e sem escrúpulos”, “uma criminosa que incita ao ódio e à violência” e que “sob capa de sapiência jurídica, debita as maiores alarvidades racistas”; a João Miguel Tavares apontou “saloice, brejeirice e superficialidade venenosa” e........
