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Portugal: velho para uns, clássico para outros

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29.08.2026

Conta-se uma história simples, daquelas que sobrevivem precisamente porque dizem mais do que parecem dizer.

Um pai oferece ao filho um automóvel antigo e, antes de lhe entregar as chaves, pede-lhe apenas uma coisa: que descubra quanto vale. O rapaz leva-o primeiro a um vendedor de carros usados. O homem olha para a idade, para a quilometragem, para aquilo que terá de reparar e oferece-lhe pouco. Depois procura outro comprador, que lhe oferece ainda menos. Para ambos, aquele carro é sobretudo isso: uma coisa velha, pesada, ultrapassada, que já viveu melhores dias.

Até que alguém lhe sugere que o leve a um encontro de automóveis clássicos.

Ali, antes sequer de perguntarem o preço, aproximam-se pessoas. Reconhecem o modelo, observam os pormenores, falam do motor, do ano, da série, da raridade. Tocam-lhe quase com o cuidado com que se toca uma memória. E, de repente, o automóvel que poucas horas antes quase não tinha valor passa a valer uma pequena fortuna.

Não ganhou um motor novo, não ficou mais bonito, não rejuvenesceu vinte anos.

Mudou apenas quem estava a olhar para ele.

Talvez Portugal sofra, há muito tempo, do mesmo problema.

Não porque seja uma relíquia perfeita, nem porque o passado lhe dê direito a alguma espécie de reverência automática, mas porque nós próprios parecemos ter uma extraordinária dificuldade em decidir o que temos diante dos olhos.

Portugal é um país estranho neste aspeto. Passamos com enorme facilidade da exaltação para o desprezo, sem demorarmos muito tempo naquele lugar, bastante menos confortável, onde normalmente mora a verdade.

Ou somos o povo dos navegadores, dos heróis, dos descobridores, da primeira globalização e dos homens que deram novos mundos ao mundo, ou somos um país condenado à mediocridade, povoado por gente atrasada, governado desde sempre por incompetentes e salvo, de tempos a tempos, pela benevolência estrangeira.

É difícil encontrarmos o meio-termo.

Talvez porque o meio-termo obrigue a pensar.

Portugal não precisa de ser o melhor país do mundo para ser um país extraordinário.

Basta olhar para a sua........

© Observador