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A Fraude - I

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05.10.2026

“Forja a língua numa bigorna livre de mentiras”, Píndaro

Causou algum burburinho uma espécie de workshop organizado recentemente por um conhecido infuencer antivacinas em Santarém. Dum lado, os adversários da iniciativa e críticos da passividade da autarquia, coproprietária das instalações onde teve lugar a tal sessão; do outro, os que acham que não se pode tolher a liberdade de opinião e que é contraproducente dar palco a um movimento sem expressão, onde se prega para pequena comunidade fechada de convertidos. Discordo destes últimos e de ambos argumentos usados.

Comecemos pela liberdade de opinião, que, como sabemos, tem limites, como seja o apelo ao ódio, que não se aplica no caso presente. Contudo, a questão centra-se no facto de não estarmos a falar de opiniões, mas de factos, de falsificação e de propagação de mentiras. Será lícito permitir a difusão de falsidades? Ou será ilegítimo combater a divulgação de mentiras? Afirmar que a capital administrativa de Portugal é Lisboa é um facto, não uma opinião. Afirmar que o Porto é a capital administrativa de Portugal é uma falsidade, já dizer que o Porto deveria ser a capital é uma opinião. Portanto, há que encarar estas duas proposições de modo diferente. Se censurar a segunda é errado, já obstaculizar a difusão da primeira é louvável.

Distinguir o facto da opinião, pode não ser fácil. Mas opiniões que se fundamentam em factos e as que procuram justificar-se com falsidades não podem ser tratadas da mesma maneira. Ora quer a eficácia, quer a segurança das vacinas estão por demais comprovadas e só, por má fé, os céticos mantêm uma campanha fundamentada em falsidades.

Tive oportunidade de ouvir um excerto de entrevista em que o tal negacionista afirmava que ninguém morria nos dias de hoje devido a difteria (o que é falso) e que tal progresso não se devia a vacinas, mas sim à melhoria das condições de higiene e de nutrição. Fácil é dizê-lo, quanto a prová-lo ... Se é iniludível que essas condições contribuem para a diminuição de incidência e mortalidade de doenças infectocontagiosas, o influencer não apresenta qualquer prova da inutilidade das vacinas. Ora, os factos demonstram-nos exatamente o contrário. O nosso Plano Nacional de Vacinação (PNV) foi introduzido em Outubro de 1965. Em 1966 registaram-se ainda 1010 casos de difteria, mas em 1967 a redução de incidência foi superior a 50%, o que não é explicável por melhorias de higiene em tão curto período. Essa diminuição acentuou-se à medida que a vacinação se expandia e na década seguinte a mortalidade por difteria tornou-se excepcional. Em 1992 foi diagnosticado o último caso de doença. Já com a poliomielite, só para citar outro exemplo, a incidência da doença diminuiu 93% entre 1964 (prévio ao início do PNV) e 1967, sendo que o último caso foi........

© Jornal Torrejano