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Cinquenta e dois anos a deixar o cravo aos outros

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Há uma frase que a muitos causa estranheza dizer. Não por cobardia. Por algo mais subtil e, por isso, mais perigoso: porque ao dizê-la em voz alta, numa certa narrativa que se instalou no debate público português, corre-se o risco de se ser interpretado como a alinhar com uma visão da História que não é a verdadeira. A frase é simples: Eu celebro o 25 de Abril e sou de direita.

Não devia ser assim. E o facto de ser assim explica, em boa parte, o estado a que chegámos.

Antes de entrar no presente, importa, mesmo que de forma rápida, fixar o passado com a clareza que merece.

O Estado Novo durou 48 anos. Foi um regime que governou Portugal com mão de ferro, que silenciou gerações inteiras através de uma censura sistemática e institucionalizada. Durante mais de quatro décadas, nada seria publicado em Portugal sem que passasse primeiro pela censura. Os censores do Estado Novo usavam um lápis azul para riscar todo o texto, imagem ou desenho considerado impróprio. A desobediência era severamente punida, o que acarretava frequentemente o seu encerramento.

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Mas o silêncio não era apenas cultural. Era também militar. Portugal manteve durante treze anos uma guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau que custou a vida a milhares de jovens portugueses e a centenas de milhares de africanos. A palavra “guerra” foi sistematicamente eliminada pelos censores, tal como faz hoje o ditador Putin. Preferia-se “movimentos subversivos” ou “infiltrações comunistas”. Era proibido até nomear o que estava a acontecer. No entanto, acontecia, e por lá morreram e ficaram feridos milhares de jovens portugueses.

A PIDE, prendia, torturava e vigiava. Havia informadores em todos os recantos da vida portuguesa. Salazar sabia de tudo, estava a par de tudo, incluindo do assassínio do general Humberto Delgado.

Digo tudo isto não para fazer um inventário do horror, mas porque é necessário dizê-lo com esta clareza antes de qualquer outra coisa. Porque há uma tendência crescente, nomeadamente no discurso de uma suposta direita, populista, de relativizar este regime, de o suavizar, de o transformar num período de “ordem e valores” que teria sido desnecessariamente interrompido por uma revolução “excessiva”. Essa relativização é uma distorção histórica e precisa de ser combatida com factos.

O 25 de Abril de 1974 foi necessário. Foi urgente. Foi um ato de libertação que não tinha alternativa democrática. Isto não é uma opinião de esquerda. É um facto histórico. Aqui começa o paradoxo central deste artigo e da política portuguesa das últimas cinco décadas.

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O segundo elemento do I Governo Provisório pós-25 de Abril foi Francisco Sá Carneiro. O líder da direita democrática estava logo abaixo do primeiro-ministro. O PSD, então PPD, nasceu dias depois da Revolução, fundado por homens que tinham combatido o regime por dentro, na chamada Ala Liberal da Assembleia Nacional, e que saudaram a queda da ditadura como libertação que também era deles. A luta que os fundadores do PPD tinham iniciado antes da conquista da liberdade era pela democratização política da sociedade segundo o modelo ocidental, pela resolução da guerra colonial e por uma revisão constitucional que consagrasse liberdades, direitos e garantias individuais.

Direitos Reservados

Figuras como Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, João Bosco Mota Amaral, Joaquim Magalhães Mota, Miller Guerra, Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa ou Basílio Horta estavam ideologicamente à direita e eram, sem margem para duvidas, inimigos da ditadura e fundadores da democracia. A direita democrática portuguesa nasceu com Abril. Não contra ele, não apesar dele, mas com ele.

E, no entanto, ao longo de 50 anos, foi deixando que a esquerda ficasse com o cravo. Não foi um roubo. Foi uma abdicação gradual, alimentada por uma combinação de fatores que ainda hoje pesam.

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O primeiro fator foi o PREC, que se seguiu imediatamente à Revolução e marcou de forma traumática a memória coletiva dos portugueses e da direita. Entre 1974 e 1975, o país viveu meses de enorme turbulência política. Foram feitas nacionalizações em larga escala, ocupações de propriedades, saneamentos de quadros e episódios de violência política. Foram meses que deixaram feridas profundas em famílias, empresas e comunidades, feridas essas que a direita portuguesa nunca esqueceu e que, ao não conseguir separar do 25 de Abril, acabaram por contaminar a sua relação com a própria data da liberdade.

O segundo fator foi uma má estratégia narrativa. A Constituição de 1976 foi aprovada com os votos contra de apenas um partido: o CDS. O que foi uma posição legítima do ponto de vista político, visto que a Constituição original tinha marcas vincadamente socialistas, as quais uma democracia-cristã não podia subscrever. Mas o gesto ficou associado, neste “imaginário coletivo”, a uma rejeição de Abril. E o CDS nunca se conseguiu desfazer essa leitura.

Mais tarde, a direita tentou compensar erguendo uma data alternativa: o 25 de Novembro de 1975, quando o golpe militar de extrema-esquerda foi derrotado. A intenção, era mais uma vez, legítima: o 25 de Novembro merece, de facto, ser celebrado como momento decisivo para a consolidação da democracia. Não haveria 25 de Novembro sem o 25 de Abril, e o 25 de Abril sem o 25 de Novembro teria sido um curto intervalo entre dois regimes autoritários. São datas complementares, não concorrentes. Mas, ao longo dos anos, a forma como parte da direita usou o 25 de Novembro — por vezes deliberadamente, por vezes por descuido retórico — transformou-o num instrumento de relativização do 25 de Abril. E isso foi um erro político e histórico que custou caro.

Carlos Paes

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O resultado acumulado de 50 anos destas hesitações, ambiguidades e erros estratégicos foi criar, no imaginário português, uma associação quase automática: Abril é de esquerda. Quem é de direita tolera-o, celebra-o formalmente, mas não se sente verdadeiramente seu filho.

Isto é falso. E é prejudicial para todos.

Seria desonesto e curiosamente cair na mesma armadilha que hoje critico, atribuindo à direita toda a responsabilidade por esta fratura. A direita afastou-se de abril por questões que exploramos, mas a esquerda, por sua vez, não ficou de braços cruzados e cultivou, ao longo de décadas, a narrativa de que o 25 de Abril lhe pertencia por direito histórico O vocabulário de Abril foi colonizado por uma determinada visão ideológica ao ponto de, hoje, qualquer pessoa de direita que tente reivindicar o legado da Revolução ser olhada com suspeita, quando não condescendência.

Esta apropriação não é inocente. É uma estratégia política com consequências reais: ao tornar Abril propriedade da esquerda, força a direita para fora do consenso fundador da democracia, fragiliza o centro e alimenta, por reação, o radicalismo. Quem exclui metade do país da memória coletiva não está a defender a democracia, mas sim a enfraquecê-la.

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Nos últimos anos, surgiu uma complicação nova que agravou de forma significativa este problema.

O populismo, encarnado em Portugal pelo Chega, encontrou no PREC uma mina de ouro narrativa. A estratégia é subtil, mas eficaz: parte de factos reais como os excessos do PREC, as nacionalizações forçadas, os saneamentos arbitrários, bem como os episódios de violência política, e usa-os sistematicamente para contaminar a imagem do próprio 25 de Abril. Não é uma negação frontal da democracia. É algo mais insidioso: a sugestão permanente de que Abril foi, no fundo, um equívoco; de que o que veio a seguir prova que o regime que derrubou era, afinal, preferível aos excessos do período revolucionário. E de que quem celebra o 25 de Abril está, implicitamente, a validar os excessos que se lhe seguiram.

É uma falácia lógica grosseira, pois os excessos do PREC não retroagem sobre a necessidade histórica da Revolução, tal como os erros de uma cirurgia necessária não tornam a doença preferível à operação. Separar estas duas coisas não é concessão política, antes requisito mínimo de honestidade histórica.

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A falácia funciona. Funciona porque encontra terreno fértil numa parte da direita que nunca conseguiu resolver a sua relação com Abril e que, perante a radicalização do discurso, tende a recuar em vez de avançar. Funciona porque o debate público, cada vez mais dominado pelas redes sociais e pelos seus mecanismos de simplificação, polarização e caracterizações simplistas entre esquerda e direita, não tem paciência para a nuance.

E funciona porque se vai apagando, pouco a pouco, a memória viva daqueles que viveram os dois regimes e podem testemunhar, na primeira pessoa, a diferença entre um e outro.

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Essa memória está a desaparecer. Quem teve 18 anos em 1974 tem hoje 72. Os que nasceram antes da guerra colonial e a viveram como adultos têm 80, 90 anos. À medida que estas gerações partem, vamos perdendo não apenas testemunhos, mas a capacidade coletiva de comparar, de sentir visceralmente a importância do que foi ganho. E é nesse vazio que as distorções históricas se instalam, crescem e ganham credibilidade.

A resposta a este problema tem de vir também da direita democrática, que tem de afirmar com a clareza e a convicção que a História justifica que o 25 de Abril também é nosso, e sempre foi. E os erros e excessos que se seguiram à Revolução que existiram, que foram reais, que afetaram pessoas concretas de formas que merecem ser reconhecidas e nunca minimizadas, no entanto, não retiram um milímetro da legitimidade histórica e moral do fim da ditadura.

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Por fim, e talvez mais importante: é preciso preservar ativamente a memória do que foi o Estado Novo. Não como exercício de nostalgia ao contrário, nem como arma política, mas como vacina cívica. As gerações mais novas, como é o caso da minha, cresceram na democracia, com os seus direitos garantidos como se sempre tivessem existido, como se fossem condição natural do mundo e não conquista específica, datada, com nomes e rostos e custos enormes. Não são. Foram ganhos. E, apesar de estarem protegidos, podem ser perdidos.

Por isso, hoje saio de casa para celebrar Abril.

Direitos Reservados

Saio livremente, e sem pedir autorização a ninguém. Nenhum lápis azul apagará o que escrevi antes de chegar ao leitor. E na segunda-feira voltarei à faculdade para continuar os meus estudos sem que um decreto me mande para África lutar e morrer por uma terra que não é minha. Saio e reúno-me com quem quiser, nos números que entender, e volto para casa sem que ninguém bata à minha porta. Sou europeu, e círculo livremente através de uma adesão que só foi possível porque deixámos de ser uma ditadura, o que permitiu décadas de modernização do nosso país. Celebro tudo isto. Celebro-o como português, não como militante.

Celebro o 25 de Abril e celebro o 25 de Novembro porque são as duas faces da mesma conquista: a Liberdade. E faço-o consciente dos erros que foram cometidos no processo, da descolonização apressada que deixou feridas abertas em África e entre os retornados, dos excessos que afetaram famílias e empresas e vidas concretas, das soluções que a pressa e a inexperiência tornaram imperfeitas.

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A história raramente é limpa. As Descobertas portuguesas deram novos mundos ao mundo e abriram rotas que transformaram a civilização, mas foram também construídas sobre a escravatura e a violência colonial. Somos capazes de reconhecer ambas as coisas em simultâneo, sem que uma anule a outra. A democracia portuguesa nasceu de um processo que foi, a um tempo, necessário, corajoso e, em vários momentos, doloroso e injusto. Somos também capazes de reconhecer isso.

O que não somos capazes de aceitar — ou não podemos aceitar, se quisermos ser honestos com a nossa História — é a sugestão de que teria sido melhor não ter acontecido. De que a ditadura era preferível à liberdade imperfeita. De que o cravo que a Dona Celeste enfiou nas espingardas dos soldados a 25 de Abril de 1974 foi um erro.

Não foi. Foi um ato de enorme coragem coletiva, que pertence a todos os portugueses. Às mulheres e aos homens que estavam nas ruas de Lisboa naquela madrugada de abril. Aos militares do MFA que arriscaram as suas carreiras e as suas vidas. Aos capitães que não tinham certeza do que viria a seguir, mas sabiam que o que estava antes não era sustentável. E também, sim, aos políticos da direita democrática que, como Sá Carneiro, estiveram presentes desde o primeiro dia e ajudaram a construir o regime em que vivemos.

Abril pertence ao povo. E o povo não é de esquerda nem de direita. É português.


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