menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O que se faz com os velhotes?

19 0
01.10.2026

Escrevo isto numa cadeira de plástico, numa urgência, ao lado do meu pai. Tem 82 anos. O que o trouxe aqui não interessa e não é meu para contar. Escrevo porque estou aqui, porque as horas numa urgência são compridas, e porque a certa altura deixei de olhar para o telemóvel e comecei a olhar para a sala.

E a sala é isto: gente velha. Muita. Alguns com um filho ou uma filha ao lado, a resolver a vida do trabalho por mensagem enquanto esperam, com aquele ar de quem já ligou três vezes a dizer que hoje não vai. Outros sozinhos, de casaco vestido e saco de plástico ao colo com os papéis todos, como quem se preparou para uma viagem de que não sabe a hora de regresso. Outros ainda com uma senhora que se percebe que é paga para estar ali, e que está ali com mais paciência do que muitos filhos teriam. Ninguém escolheu esta sala. Todos acabaram nela.

Os velhos têm uma frase para tudo, e para isto também. "Não quero dar trabalho a ninguém." Toda a gente conhece um velho que diz isto. A ideia é sempre a mesma: passar pela velhice sem incomodar, apagar-se antes de ser um peso. E a sociedade, que se diz civilizada, ouviu-os e concordou. Não os abandona de propósito. Simplesmente organizou-se de maneira a que eles não deem trabalho.

Vejam-se as contas, porque é pelas contas que se começa em qualquer família, quer se queira quer não. A pensão média de velhice anda pouco abaixo dos 700 euros. Um lar privado custa, em média, mais de 1800 por mês. Num lar com acordo com a Segurança Social, a chamada cama comparticipada, o Estado paga cerca de 660 euros e a família paga o resto, que é quase o dobro. A reforma de uma vida inteira de trabalho não chega para pagar o sítio onde essa vida vai acabar. A diferença sai dos filhos, quando os há e quando podem. E quando não há, ou quando não podem, não sai de lado nenhum.

E quando não sai de lado nenhum, o velho fica no hospital. Isto tem nome técnico, chama-se internamento social ou alta........

© Expresso