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As mãos do médico

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22.09.2026

Meu colega Leo Cirino, clínico dos bons e ciclista mais multirresistente do que qualquer pseudomonas que conheço, me enviou o último número do New England Journal of Medicine. Lá dentro, uma pergunta que eu julgava resolvida desde Hipócrates: devemos examinar um homem saudável?

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O caso é simples, como são simples as coisas que acabam em briga de boteco. Um senhor de 60 anos, arquiteto, casado há 20, vai ao médico sem queixa nenhuma. Foi porque a mulher mandou. Toda consulta masculina depois dos 50 começa assim, e desconfio que a medicina preventiva deva mais às esposas do que a qualquer Ministério da Saúde.

Toma um remédio para a azia e outro para dormir, não fuma, pressão de 12,6 por 8,8. É, em suma, um homem que não tem nada — o que, para um médico, é sempre uma afirmação provisória.

Pois a revista, com aquela elegância americana de transformar dúvida em torneio, convidou dois professores ilustres para defender um lado cada, designados pelos editores como num debate de colégio. Ao final, o leitor vota. Nunca imaginei que o estetoscópio fosse parar nas urnas.

Registro, antes, uma alegria de revisor: no texto do caso, escrito por uma neurologista, a doença do refluxo gastroesofágico virou doença do “reflexo”. Um erro de uma letra que confirma minha velha tese: cada especialista enxerga no corpo o que estudou. A neurologista vê reflexo até no esôfago; o........

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