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A eleição sitiada: quando vencer não basta

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03.10.2026

A votação escolhe o presidente. Pode não encerrar o conflito. A eleição de 2026 chega às urnas com o candidato do PL atacando as instituições que vão fiscalizar e proclamar o resultado, enquanto Washington já transformou decisões brasileiras em motivo para sanções, tarifas e financiamento político no exterior.

O alvo não é a urna, é a legitimidade

No começo da tarde deste sábado, a menos de vinte e quatro horas da abertura das urnas, Flávio Bolsonaro terminou uma motocarreata no interior de São Paulo e atacou o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal e o Congresso. Disse que ministros do STF dão “canetadas” para ajudar Lula, chamou a Corte de “delegacia de polícia”, acusou uma parte da PF de perseguir adversários e afirmou que o Congresso está capturado. Depois falou em pacificação. Perguntado se aceitaria uma derrota neste domingo, não respondeu. Em agosto, numa entrevista à BandNews, havia dito que aceitaria o resultado. Na véspera da votação, não reiterou o compromisso.

A cena não nasceu de uma improvisação de campanha. Flávio disputa a Presidência como herdeiro de um campo político que já colocou o sistema eleitoral no centro de uma tentativa de ruptura. Jair Bolsonaro foi declarado inelegível pelo TSE em 2023 depois de usar a Presidência e a estrutura pública para reunir embaixadores no Palácio da Alvorada e atacar sem provas as urnas eletrônicas. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo o condenou, por quatro votos a um, a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes, entre eles tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O STF o apontou como líder da organização criminosa julgada no núcleo central da trama.

Em 2022, o ataque mirava diretamente a confiabilidade da urna. Em 2026, o centro de gravidade se deslocou. O discurso de Flávio atinge quem julga, investiga, retira conteúdo do ar, organiza a eleição e proclama o vencedor. O equipamento continua importante, mas a disputa sobre a autoridade do árbitro ganhou uma centralidade nova. Uma eleição pode ser tecnicamente íntegra e ainda assim entrar numa batalha política sobre quem tem legitimidade para dizer que o resultado vale.

O cancelamento do último debate da Globo mostrou a velocidade dessa mudança. Lula havia informado que não compareceria. A emissora pretendia manter no estúdio um púlpito vazio com o nome do presidente e permitir perguntas dirigidas ao candidato ausente. A ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu as duas regras. A participação em debate é facultativa. Estela entendeu que as consequências previstas para a ausência tinham aparência de mecanismo para pressionar o candidato a comparecer e que perguntas sem possibilidade de resposta simultânea poderiam criar desequilíbrio entre os participantes.

A decisão podia ser contestada e recorrida. Foi criticada por juristas e pela própria Globo. Isso é diferente de tratá-la como ilegalidade demonstrada ou como prova de censura. Estela havia trabalhado no governo Lula antes de chegar ao TSE e foi indicada pelo presidente, informação relevante para o escrutínio de sua trajetória. Nada disso elimina a fundamentação jurídica da decisão. Até agora, o episódio registra uma interpretação judicial sobre as regras de um debate, não uma prova de fraude eleitoral.

Na mesma noite, Gilmar Mendes determinou que Renan Santos participasse do encontro. Flávio desistiu. As decisões e os anúncios ocorreram num intervalo curto e as fontes divergem sobre a ordem exata, o que impede afirmar que ele abandonou o debate para evitar Renan. A explicação escolhida pelo candidato foi outra. Flávio disse que saía por causa da “censura imposta” pelo TSE. A Globo cancelou o programa e atribuiu a decisão à insegurança jurídica produzida pelas ordens judiciais de última hora. Um conflito sobre regras de televisão passou a circular como conflito sobre a legitimidade de quem regula a eleição.

Poucos dias antes, a campanha de Flávio havia recorrido à mesma Justiça para retirar publicações sobre Nossa Senhora Aparecida. A história foi tratada muitas vezes como se fosse uma invenção sem qualquer base real. Era falsa a afirmação de que Flávio Bolsonaro havia apresentado, apoiava ou pretendia executar um projeto para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O projeto, porém, existiu. O PL........

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