“Mother” – Revivendo a ontológica composição de Lennon – Verdadeiro compêndio psicanalítico
A gravação mais conhecida de Mother, de John Lennon, foi lançada em dezembro de 1970, como faixa de abertura do álbum solo John Lennon/Plastic Ono Band, gravada sob influência da terapia primal, expressando sua dor pelo abandono dos pais e a perda da mãe. A versão de álbum começa com quatro badaladas de sino, seguida pelo vocal e piano crus. Essa ontológica composição não se limita a uma canção confessional. Ela se impõe como um documento psíquico. Os gritos finais — crus, repetitivos, quase insuportáveis — não são um recurso estético gratuito; são a irrupção do real, aquilo que escapa à linguagem e que, ainda assim, exige ser dito. Ali, Lennon não canta apenas sua história pessoal. Ele dá forma sonora a uma experiência que atravessa gerações: a ruptura do laço primordial e seus efeitos duradouros sobre o sujeito.
A letra é simples, quase infantil: “Mother, you had me, but I never had you. I wanted you, you didn’t want me.” A economia de palavras contrasta com a densidade afetiva. Não há metáfora sofisticada, nem sublimação poética. Há, antes, a repetição insistente do abandono — da mãe ausente, do pai que parte — como quem tenta, pela fala, domesticar uma perda que nunca foi simbolizada. O que Lennon encena ali é o drama da separação não elaborada: aquela que não encontra palavras suficientes no momento em que ocorre e retorna, décadas depois, como sintoma.
Esse mesmo drama, em escala menos espetacular, mas não menos devastadora, se repete diariamente nas separações conjugais contemporâneas. Adultos se separam — por esgotamento, incompatibilidade, violência ou simples desencontro — e, em meio ao colapso do vínculo amoroso, frequentemente subestimam o impacto subjetivo que essa ruptura produz nos filhos. A criança, diferentemente do adulto, não dispõe de narrativas prontas para compreender o que se passa. Ela vive a separação não como um rearranjo de afetos, mas como uma falha estrutural no mundo que a sustentava.
Do ponto de vista psíquico, a família não é apenas um arranjo social; é o primeiro cenário simbólico em que o sujeito se constitui. Quando esse cenário se rompe abruptamente, sem mediação........
