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Quando o confronto entra pela porta da sala de aula. O papel do mediador de conflitos

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02.10.2026

Há professores que chegam ao fim da carreira com um conhecimento admirável da matéria que ensinam e uma experiência feita de milhares de rostos, histórias e acontecimentos. Conhecem os silêncios de uma turma, reconhecem o aluno inquieto antes dele abrir a boca, distinguem a indiferença da tristeza e sabem que, muitas vezes, uma criança ou um jovem que parece desinteressado está apenas a pedir ajuda numa linguagem que a escola ainda não aprendeu a decifrar.

Imaginemos uma professora de Português, já muito perto do fim da sua longa carreira, diante de uma turma de 30 alunos que conhece há meses. Há um aluno que chega sistematicamente atrasado. Não são cinco minutos ocasionais de um dia de chuva ou de um autocarro que se atrasou. É quase todos os dias. Entra quando a aula já começou, interrompe o fio da explicação, ocupa o lugar com uma lentidão ostensiva, troca comentários ofensivos com os colegas, contesta as orientações, perturba a concentração dos outros. A professora corrige, adverte, regista ocorrências, contacta o diretor de turma, a família, procura ajuda junto da direção de turma. No dia seguinte, a história recomeça.

Nada de extraordinário acontece num único desses dias. E é precisamente esse o problema. A violência escolar nem sempre começa com um murro, uma ameaça ou uma cadeira atirada ao chão. Há uma violência mais subtil, subterrânea, feita de pequenas afrontas repetidas, de desrespeitos normalizados, de desafios constantes à autoridade, de humilhações discretas, de interrupções que se acumulam até transformarem uma sala de aula num território de desgaste. O que isoladamente parece pouco, quando repetido durante meses, pode destruir a confiança necessária para ensinar e aprender.

A professora vai ficando exausta. O aluno vai ficando cada vez mais distante da regra. A turma percebe que a autoridade está a ser testada. E a escola vai registando acontecimentos, como quem tenta transformar uma relação deteriorada numa sequência de números e formulários. Entretanto, é preciso dar a aula.

É esta uma das contradições mais difíceis da escola contemporânea: ao professor é pedido que ensine, eduque, avalie, motive, inclua, acompanhe, comunique com as famílias e responda à diversidade crescente das salas de aula, ao mesmo tempo que se espera que seja capaz de intervir eficazmente perante conflitos para os quais são necessárias competências específicas de natureza relacional e socioeducativa.

Não se trata de diminuir a responsabilidade dos professores. Trata-se de reconhecer os limites de qualquer profissão quando lhe são atribuídas funções que ultrapassam a sua especialização.

Os dados mais recentes do Programa Escola Segura dão espessura a esta realidade. No ano letivo de 2025/2026, a PSP registou 4.075 ocorrências, mais 4,6% do que no ano anterior. Destas, 2.898 tiveram natureza criminal e 1.177 natureza não criminal. As ofensas à integridade física atingiram 1.426 ocorrências, mais 10,5% do que em 2024/2025 e o valor mais elevado dos últimos cinco anos. As injúrias e ameaças chegaram às 920. A PSP registou ainda 155 situações........

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