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Saramago e a identidade nacional

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06.06.2026

A obra de Saramago confronta uma ideia de nação assente na continuidade, na excecionalidade histórica e numa matriz cultural frequentemente apresentada como cristã. Esta visão, com raízes longas e reconfigurada em diferentes momentos, continua hoje a ser mobilizada por setores conservadores que procuram fixar uma identidade nacional estável, coerente e, sobretudo, defensiva face à mudança. No atual contexto europeu, marcado pela afirmação de discursos nacionalistas e pela ascensão de forças de extrema-direita, essa operação identitária tornou-se ainda mais explícita: a nação é evocada como refúgio moral, comunidade homogénea e herança ameaçada.

É precisamente esta visão que Saramago desmonta. Em romances como O Evangelho Segundo Jesus Cristo, a tradição cristã − frequentemente invocada como fundamento da identidade portuguesa − é submetida a uma reinterpretação radical. Ao humanizar Jesus e ao representar Deus como uma figura marcada por interesses de poder, Saramago rompe com uma leitura teológica estabilizada e questiona a utilização da religião como fonte de legitimidade moral e política. A polémica que rodeou a obra, incluindo a intervenção governamental que impediu a sua candidatura a um prémio europeu, mostrou como a identidade nacional pode ser........

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