Crédito ampliou consumo, mas não tirou classe C da pobreza, diz geógrafo
Crédito ampliou consumo, mas não tirou classe C da pobreza, diz geógrafo
Em suas pesquisas sobre economia urbana na periferia de São Paulo, o geógrafo e professor da Unicamp Kauê Lopes dos Santos encontrou muita televisão de última geração, computador e máquina de lavar. Mas nos sobrados mal-acabados, a água da torneira muitas vezes só corre na parte da tarde. A luz cai com frequência e o lixo se espalha pelas ruas esburacadas. Para o geógrafo, autor do recém-lançado "Parcelado" (editora Fósforo), a chamada nova classe C teve acesso a bens de consumo por meio da oferta abundante de crédito, mas isso não garantiu a superação da condição de pobreza. No livro, ele mostra como essa população periférica, majoritariamente negra, que se endividou para comprar bens de consumo cada vez menos duráveis hoje está cronicamente endividada, com o futuro ameaçado por prestações a perder de vista que comprometem quase toda a sua renda.
UOL - Um tema central de "Parcelado" é a relação entre acesso a bens de consumo e a superação da pobreza. O que o fato de ter celular de última geração, televisão, geladeira diz sobre a condição de alguém?
Kauê Lopes dos Santos - É claro que o consumo de eletrodomésticos e eletroeletrônicos melhora a vida da população objetivamente — desde o armazenamento de comida até o acesso à televisão, videogame e internet. Mas eu defendo que essas pessoas não saíram da pobreza. Temos uma pobreza com uma nova cara, que permanece como pobreza em função de carências que ainda persistem: acesso precário a saneamento básico, coleta de lixo, segurança, saúde, educação e lazer.
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Numa leitura da população, houve melhoria de vida. A gente celebrou isso como a nova classe C.
Tivemos uma política anticíclica, neodesenvolvimentista, de colocar o pobre no orçamento, com a população de baixa renda passando a consumir e fazendo girar a economia brasileira durante um período recessivo........
