Um pai fala, o outro ri - sobre o saber impossível da paternidade
Um pai fala, o outro ri - sobre o saber impossível da paternidade
Eis a única verdade possível sobre a paternidade: quando um pai pensa ter alcançado alguma visão clara sobre seu ofício, quando crê ter atingido uma convicção certeira, quando enfim se faz capaz de traduzi-la em palavras, um outro pai ouve e ri, espantado com aquele equívoco, aquela ingenuidade. Às vezes são os dois o mesmo pai, e a certeza de um é o riso do outro alguns dias depois, ou meses depois, anos depois. Às vezes são os dois o mesmo homem, mas atuando como pai de outra criança, tendo assim que se tornar outro, tendo que renascer todo transformado apenas para se encontrar de novo consigo mesmo.
Recuo um instante, explico o pensamento que conduz essas palavras. Dez anos atrás, antes que nascesse a minha primeira filha, me entreguei à leitura desenfreada de diversos livros sobre parentalidade, tentei me fazer um pai teórico antes que fosse um pai real, tentei ser de partida um pai intelectual. Aprendi algumas lições valiosas que logo se apagaram sem deixar rastro na minha memória. Era preciso que se apagassem. Para lidar com a minha filha que ali despontava, que aos poucos descobria seus humores peculiares, seus gestos e sua voz, era preciso ignorar as ideias dos outros e estar presente em carne própria. Tulipa não era a criança genérica de que os livros falavam,........
