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Dinheiro sem rosto: criptomoedas e cibercriminalidade

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02.09.2026

Quando se fala de cibercriminalidade no espaço público, a conversa tende a seguir um guião previsível. Fala-se de ataques, malware, phishing, espionagem, sabotagem, sistemas comprometidos, dados roubados e serviços indisponíveis.

Muito menos atenção é dada àquilo que hoje constitui um dos principais catalisadores deste ecossistema criminoso: a capacidade de movimentar valor e ocultar a origem e o destino dos fundos através de criptomoedas e serviços associados.

Sem mecanismos que permitam receber, transferir e dissimular os proveitos do crime com um grau relevante de anonimato, muitos modelos ilícitos perderiam viabilidade. O ransomware é o exemplo mais evidente. O atacante compromete sistemas, cifra dados, exfiltra informação, ameaça a vítima e exige um resgate, muitas vezes pago em ativos digitais. A partir desse momento, os fundos podem ser encaminhados por serviços de mistura, cadeias complexas de transações, plataformas de câmbio, aplicações de finanças descentralizadas, apostas online e conversões sucessivas entre diferentes ativos.

O objetivo é simples: tornar o rastreio tão difícil, moroso e incerto quanto possível.

O problema não reside apenas no ecossistema que rodeia as criptomoedas. Está também nas características de muitas destas moedas, concebidas para circular com fraca ligação a identidades verificadas, fora dos mecanismos tradicionais de controlo e com elevada resistência à intervenção de terceiros.

A isto soma-se a assimetria entre plataformas que cumprem regras de identificação de clientes e comunicação de operações suspeitas, e outras que oferecem precisamente o contrário: opacidade, anonimato reforçado e resistência a pedidos de cooperação internacional. Muitas destas entidades operam em jurisdições permissivas, com supervisão frágil, capturada ou simplesmente pouco preparada para lidar com este fenómeno.

Ignorar esta componente financeira é discutir cibercriminalidade a meio gás. Enquanto o fluxo de fundos digitais continuar a ser fácil de ocultar, o crime continuará altamente rentável.

Para muitos grupos, a transformação digital continuará a ser vista não como progresso, mas como terreno fértil para extorsão, fraude e branqueamento em escala industrial.

No sistema bancário tradicional, o dinheiro tem sempre rosto. Não no sentido literal, mas porque a infraestrutura assenta em identidades verificadas, registos centralizados e obrigações legais de comunicação. Uma transferência bancária deixa rasto em várias camadas: no banco do ordenante, no banco do destinatário, nos sistemas de compensação e em registos auditáveis.

É possível abusar desse sistema, mas o esforço necessário é elevado e o risco de exposição é real.

No universo das criptomoedas públicas, a lógica é diferente. Cada transação fica registada numa cadeia de blocos, visível para todos. À primeira vista, poderia parecer o pior cenário para um criminoso, já que tudo fica inscrito de forma permanente. Mas a blockchain mostra endereços, não identidades.

O rasto pode ser transparente, mas o titular permanece oculto. A assimetria está precisamente aqui: se o atacante conseguir manter separada a sua identidade física dos endereços que controla, a........

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