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Os desastres naturais e a imigração

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03.03.2026

Foi divulgado há poucas semanas o Eurobarómetro do outono de 2025 (uma sondagem utilizada pelas instituições da UE para monitorizar regularmente o estado da opinião pública na Europa), baseado em inquéritos conduzidos em novembro. As preocupações dos portugueses relativamente à generalidade dos aspetos catalogados como «preocupações relacionadas com segurança e proteção», (e que incluem, guerra, riscos de ciberataques, terrorismo, autonomia energética ou capacidade de defesa própria), são basicamente idênticas às dos restantes europeus. Existem, todavia, duas exceções - as «catástrofes naturais agravadas pelas alterações climáticas» e os «fluxos migratórios descontrolados» - onde os portugueses se manifestam gritantemente mais preocupados do que os seus congéneres europeus: 91% declararam-se «muito preocupados» com as catástrofes naturais contra apenas 66% no resto da Europa e, no que se refere aos fluxos migratórios, a proporção é 88% contra 65%.

Os portugueses estão, pois, marcadamente mais preocupados com o controlo da imigração e com as catástrofes naturais. Não será difícil descortinar razões para tal. Os incêndios florestais são traumas coletivos que se repetem ano após ano, numa regularidade sinistra, perante a impotência do Estado. (Note-se que os inquéritos são anteriores à devastação das recentes tempestades e cheias; o que seria agora?...). Por outro lado, temos o enorme e extremamente rápido crescimento do número de estrangeiros legalmente residentes - cujo peso na população residente passou de 4% em 2017 para 14,4% em 2024 -, situação que, para mais, tem tido grande destaque no debate público. (Ainda assim, não sendo o caso português quanto à imigração virgem na Europa, não deixa de ser curiosa e motivo de reflexão a singular preocupação revelada pelos portugueses.)

Este inquérito ter vindo a lume numa altura em que regiões do país foram devastadas por uma sucessão de calamidades naturais tem o seu quê de trágica ironia. Explico. A recuperação dos estragos vai exigir um enorme esforço de construção civil, setor onde vão ser precisos mais empresas, empreiteiros e trabalhadores. Não existindo uma grande reserva de mão-de-obra disponível, e não sendo possível sem um custo proibitivo deslocar a existente de obras em curso, parece inevitável o recurso a imigrantes, num número ainda difícil de avaliar. Os desastres naturais, uma enorme preocupação dos portugueses, arriscam-se assim a propiciar mais imigração, uma sua outra grande preocupação.

Suspeito que o esforço de recuperação irá lançar novas polémicas em torno da política de imigração. Aqueles - tipicamente encostados à esquerda, ao neoliberalismo ou a interesses económicos associados ao turismo -, que sempre encararam os fluxos imigratórios quase irrestritos com equanimidade ou simpatia, aproveitarão para argumentar que afinal tinham razão e que o país não funciona sem imigrantes. Usando como argumento a urgência em dar uma resposta às vítimas das calamidades, surgirão propostas de regresso a regimes próximos da ‘manifestação de interesse’ ou, seguindo o exemplo espanhol, de regularizações extraordinárias. Penso que será um erro se tiverem acolhimento. Um erro porque a imigração não deve ser olhada numa ótica meramente utilitária e de curto prazo. São pessoas e não ‘máquinas’ que estaremos a acolher; pessoas que ainda aqui estarão, com as famílias que entretanto vierem a constituir, quando as calamidades deste fevereiro já mais não forem mais do que uma memória longínqua. A possibilidade de integração cultural e social e as consequências de longo prazo nunca devem ser ignoradas quando se pensa na imigração. As soluções para problemas bem limitados na natureza e no horizonte temporal de resolução - no caso, a reconstrução das zonas devastadas -, devem ser temporárias e dirigidas à natureza específica do problema. Ou seja, eventuais reforços da imigração motivados pelas calamidades devem estar associados a vistos de trabalho temporários especificamente para a construção civil. Só esta solução revelará compreensão pelas preocupações manifestadas pelos portugueses. 


© SOL