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Tem Fórmula 1, mas não tem médico de família

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Y é português, vive na cidade de Lisboa e estamos em 2026. Mudou de casa e precisa de uma consulta médica. O caso é real e não é raro.

Foi à USF mais próxima, que funciona dentro de um hospital, para se reinscrever e tentar ter médico de família. Responderam-lhe que não havia médicos nem vagas: os utentes estavam agregados a médicos vindos de outro centro e não entrava mais ninguém. Mandaram-no para outro centro de saúde, também perto de casa.

Y já tem alguma idade e precisa de acompanhamento médico prolongado. No segundo centro disseram-lhe que, mesmo inscrito, não terá médico, porque há perto de 30 mil pessoas à sua frente, e que, a não ser que aconteça um milagre, possivelmente nunca terá médico de família no resto da vida. Pediu uma consulta e foi sincero: não era urgente, mas precisava de ser acompanhado. O nome ficou registado. Tem 4.500 pessoas à frente para uma simples consulta.

Outro utente, que ia a sair, voltou atrás e disse-lhe: “Consegui consulta para junho de 2027. Não abuse das urgentes sem precisar, porque fica queimado e nunca mais tem consulta.” No mesmo dia, um casal amigo contou-lhe que tinha lugar na USF porque conseguiu uma cunha.

O que Y ganha por mês, o vencimento médio, não dá para consultas regulares no privado. Se for a algumas, corta nas refeições desse mês. Não tem cunha nem pertence a nenhum grupo com voz. É um cidadão médio.

Em setembro de 2019, o melhor momento da década, havia 641.228 utentes sem médico de família. Em maio de 2026 eram 1.666.823, mais do dobro. Só entre janeiro e maio deste ano juntaram-se mais 65.805, segundo os dados do próprio SNS. A região de Lisboa e Vale do Tejo, onde Y vive, bateu em maio o recorde, com 1.165.496 utentes sem médico........

© SOL