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A mudança de vento eleitoral que cresceu na Hungria

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14.04.2026

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Órban arrasta muita gente nesta derrota pesada. Marine Le Pen, Matteo Salvini, Santiago Abascal, Benjamin Netanyahu, Javier Milei e Alice Weidel são figuras muito presentes desde janeiro nos vídeos de campanha do agora perdedor. A presidência dos Estados Unidos, que pôs J.D Vance em inaudita intromissão na escolha dos húngaros, com intervenção muito agreste contra as lideranças europeístas, perde nesta eleição o chefe que apontava como modelo para o futuro da Europa.

Putin fez tudo para salvar o precioso aliado, sabe-se que enviou para Budapeste os especialçistas russos em intelligence, propaganda e contra-informação. Inundaram as redes sociais de manipulação a favor de Órban, o cavalo de Tróia do Kremlin dentro da União Europeia, o chefe que garantia direito de veto no Conselho Europeu às iniciativas hostis a Putin e que também era precioso canal para movimentos bancários e contratos energéticos, contornando sanções. Órban era o travão às sanções anti-Moscovo e às ajudas pró-Kiev.

O dano real para Putin, como para a Casa Branca MAGA em Washington e para a internacional ultrasoberanista é de natureza estratégica: fica desmantelado o principal centro de poder na Europa da “democracia iliberal”.

É um facto que os 16 anos de poder de Órban levaram o regime que instalou a penetrar profundamente em todas as instituições. A tarefa de Magyar para libertar todo o aparelho de Estado vai ser gigantesca, com resultados lentos e incertos. O sistema de Órban vai manter, pelo menos por agora, a propriedade dos muitos media que difundem narrativas pró-russas.

Há analistas em Moscovo que, reconhecendo a derrota pesada para a Rússia, não a tomam por catástrofe sem alternativa. O reposicionamento do poder em Budapeste vai levar a outros países, como a Eslováquia de Fico, a aparecer agora mais a descoberto a favor de Moscovo. Mas sem o poder que Órban tinha. A mudança de poder na Hungria é um calvário a menos para a Europa e um a mais para a Rússia.

Há uma dúvida que se instala: a derrota de Órban, três semanas depois da derrota de Meloni num referendo constitucional italiano que parecia ganho, será o prelúdio de uma inversão de tendência a favor das forças democráticas, os partidos tradicionais à direita ou à esquerda? Será que o narcisismo e arrogância feita com ilusão de omnipotência de Trump está a ter efeito de vacina contra as posições das direitas mais ultras?

O voto na Hungria e em Itália mostra mudança na direção do vento. Sopra forte contra o populismo, as direitas liberais recuperam fôlego.

Os próximos grandes testes são Israel onde Netanyahu é posto à prova em outubro, e os EUA com as midterm  que em novembro vão ditar o destino da era Trump. As presidenciais brasileiras, em outubro, também vão contar muito.

Daqui a um ano vão ser as presidenciais francesas. A direita da direita, com Le Pen e Bardella, parecia embalar para um triunfo claro. Nas últimas semanas, o centrista Édouard Philippe saltou para a frente e está a reunir apoios da esquerda moderada que rejeita as palavras de ordem de há 20 anos.

Por agora, na Europa, está à prova o poder ganhador na Hungria. As cenas de júbilo presenciadas na noite de domingo nas praças e avenidas de Budapeste não serão esquecidas tão cedo. A retumbante vitória de Péter Magyar e do seu partido Tisza, no final de uma campanha conduzida em clima tóxico, abre um grande ponto de viragem. É a escolha da democracia em detrimento do iliberalismo e do autoritarismo. A escolha da luta contra a corrupção em detrimento da cleptocracia. Ou até mesmo de Bruxelas em detrimento de Moscovo.

Cansados ​​de repetidos escândalos, os húngaros votaram provavelmente mais "contra Orbán" do que "a favor de Magyar".

O entusiasmo, no entanto, é contido. Para o vencedor, Magyar, a tarefa mais difícil mantém-se: transformar um voto de protesto num projeto político duradouro, sem repetir as falhas que denunciou. E livrar-se do legado do Fidesz, de Órban. O desafio é imenso. As dúvidas são legítimas. Rotulado como um "conservador pró-europeu", Magyar terá de clarificar algumas posições que permanecem ambíguas. A eleição prova que uma mudança de poder ainda é possível, mesmo num sistema rigidamente controlado.

Falta dar corpo ao projeto de mudança.

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