A mudança de vento eleitoral que cresceu na Hungria
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Órban arrasta muita gente nesta derrota pesada. Marine Le Pen, Matteo Salvini, Santiago Abascal, Benjamin Netanyahu, Javier Milei e Alice Weidel são figuras muito presentes desde janeiro nos vídeos de campanha do agora perdedor. A presidência dos Estados Unidos, que pôs J.D Vance em inaudita intromissão na escolha dos húngaros, com intervenção muito agreste contra as lideranças europeístas, perde nesta eleição o chefe que apontava como modelo para o futuro da Europa.
Putin fez tudo para salvar o precioso aliado, sabe-se que enviou para Budapeste os especialçistas russos em intelligence, propaganda e contra-informação. Inundaram as redes sociais de manipulação a favor de Órban, o cavalo de Tróia do Kremlin dentro da União Europeia, o chefe que garantia direito de veto no Conselho Europeu às iniciativas hostis a Putin e que também era precioso canal para movimentos bancários e contratos energéticos, contornando sanções. Órban era o travão às sanções anti-Moscovo e às ajudas pró-Kiev.
O dano real para Putin, como para a Casa Branca MAGA em Washington e para a internacional ultrasoberanista é de natureza estratégica: fica desmantelado o principal centro de poder na Europa da “democracia iliberal”.
É um facto que os 16 anos de poder de Órban levaram o regime que instalou a penetrar profundamente em todas as instituições. A tarefa de Magyar para libertar todo o aparelho de Estado vai ser gigantesca, com resultados lentos e incertos. O sistema de Órban vai manter, pelo menos por agora, a propriedade dos muitos media que difundem narrativas pró-russas.
Há analistas em Moscovo que, reconhecendo a derrota pesada para a Rússia, não a tomam por catástrofe sem alternativa. O reposicionamento do poder em Budapeste vai levar a outros países, como a Eslováquia de Fico, a aparecer agora mais a descoberto a favor de Moscovo. Mas sem o poder que Órban tinha. A mudança de poder na Hungria é um calvário a menos para a Europa e um a mais para a Rússia.
Há uma dúvida que se instala: a derrota de Órban, três semanas depois da derrota de Meloni num referendo constitucional italiano que parecia ganho, será o prelúdio de uma inversão de tendência a favor das forças democráticas, os partidos tradicionais à direita ou à esquerda? Será que o narcisismo e arrogância feita com ilusão de omnipotência de Trump está a ter efeito de vacina contra as posições das direitas mais ultras?
O voto na Hungria e em Itália mostra mudança na direção do vento. Sopra forte contra o populismo, as direitas liberais recuperam fôlego.
Os próximos grandes testes são Israel onde Netanyahu é posto à prova em outubro, e os EUA com as midterm que em novembro vão ditar o destino da era Trump. As presidenciais brasileiras, em outubro, também vão contar muito.
Daqui a um ano vão ser as presidenciais francesas. A direita da direita, com Le Pen e Bardella, parecia embalar para um triunfo claro. Nas últimas semanas, o centrista Édouard Philippe saltou para a frente e está a reunir apoios da esquerda moderada que rejeita as palavras de ordem de há 20 anos.
Por agora, na Europa, está à prova o poder ganhador na Hungria. As cenas de júbilo presenciadas na noite de domingo nas praças e avenidas de Budapeste não serão esquecidas tão cedo. A retumbante vitória de Péter Magyar e do seu partido Tisza, no final de uma campanha conduzida em clima tóxico, abre um grande ponto de viragem. É a escolha da democracia em detrimento do iliberalismo e do autoritarismo. A escolha da luta contra a corrupção em detrimento da cleptocracia. Ou até mesmo de Bruxelas em detrimento de Moscovo.
Cansados de repetidos escândalos, os húngaros votaram provavelmente mais "contra Orbán" do que "a favor de Magyar".
O entusiasmo, no entanto, é contido. Para o vencedor, Magyar, a tarefa mais difícil mantém-se: transformar um voto de protesto num projeto político duradouro, sem repetir as falhas que denunciou. E livrar-se do legado do Fidesz, de Órban. O desafio é imenso. As dúvidas são legítimas. Rotulado como um "conservador pró-europeu", Magyar terá de clarificar algumas posições que permanecem ambíguas. A eleição prova que uma mudança de poder ainda é possível, mesmo num sistema rigidamente controlado.
Falta dar corpo ao projeto de mudança.
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