Borrego e cabrito não podem viver só da Páscoa
O consumo per capita de carne de ovinos e caprinos em Portugal ronda os 2,5 kg por pessoa por ano, segundo dados do INE. Para colocar este número em perspetiva: um português come em média mais de 40 kg de carne de porco por ano, e cerca de 20 kg de bovino. O borrego e o cabrito são quase invisíveis nas prateleiras dos supermercados durante onze meses, e de repente aparecem as promoções, os expositores especiais e a visibilidade na Semana Santa e no Natal.
De onde vem esta sazonalidade? A resposta é antiga e vai buscar raízes à herança judaico-cristã. O cordeiro pascal é símbolo de pureza e sacrifício desde a fuga do Egito, e foi naturalizado pela liturgia católica como a carne do jejum quebrado e da alegria restaurada. Em Portugal, onde a identidade rural e a fé católica marcaram a vida durante séculos, o borrego ficou prisioneiro desse calendário sagrado.
O problema não é só cultural. É estrutural. Segundo a análise setorial do GPP, Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral do Ministério da Agricultura, a produção nacional de carne de ovino e caprino caiu 36% entre 2000 e 2018. O efetivo ovino era de quase três milhões de animais em 1999 e situa-se hoje em pouco mais de dois milhões. Mais de um milhão de ovelhas desapareceram do campo português numa geração.
Os desafios do setor acumulam-se. A pressão da concorrência externa cresce, e vai crescer mais, com o acordo de comércio livre assinado entre a UE e a Austrália em março, que abre caminho à carne ovina australiana a um custo de produção muito abaixo do europeu. A isto soma-se o impacto recente da língua azul, que provocou mortalidade, perdas de rendimento e instabilidade nas explorações.
Há ainda um outro fator que raramente é discutido: a guerra. Os conflitos no Médio Oriente e no Norte de África perturbaram circuitos de exportação que o setor tinha conseguido construir com esforço ao longo de anos, nomeadamente para países como Israel, que era um dos principais compradores de animais vivos portugueses. A exportação de ovinos vivos chegou a representar perto de 90% do valor total exportado pelo setor, e qualquer instabilidade nestes mercados tem consequências diretas nos rendimentos dos produtores nacionais.
E depois há a contradição que mais devia incomodar. Vivemos um período de subida persistente do cabaz alimentar, a inflação afetou quase todos os produtos à mesa dos portugueses, e os consumidores sentem esse peso mês a mês. Neste contexto, seria de esperar que uma carne de produção nacional, com custos conhecidos e cadeia curta, conseguisse pelo menos manter o seu valor. Não foi o que aconteceu. Nesta Páscoa, em plena época de maior procura, os preços do borrego produzido no Alentejo caíram. Parte da grande distribuição voltou a abastecer-se no exterior precisamente nas semanas em que o produto nacional mais precisava de escoamento. Um produtor a receber menos, numa época em que tudo ficou mais caro, é o retrato de um setor que não consegue ainda traduzir a sua qualidade em valor de mercado.
O pastoreio extensivo tem valor económico, territorial e ambiental. Ajuda a manter atividade em zonas frágeis, ocupa território e contribui para a gestão da vegetação e da carga combustível. O governo avançou neste ano com um programa de apoio ao pastoreio extensivo, reconhecendo que os rebanhos também prestam um serviço ao país.
Gostamos muito de falar do interior, da autenticidade, da sustentabilidade e da prevenção dos incêndios. Mas depois tratamos o borrego e o cabrito como se só servissem para duas festas por ano.
Talvez esteja na altura de puxar o borrego e o cabrito para o centro do mercado, e não apenas para o centro da mesa nas festas. A restauração, os chefs e a distribuição têm aqui uma oportunidade concreta. Estas carnes precisam de sair da redoma festiva e ganhar presença nas cartas, nos balcões e nas cozinhas urbanas. Para isso não basta apelar à tradição, é preciso dar-lhes formato, visibilidade e, em bom português, saber vendê-las.
Aqui no Alentejo não precisamos de grande justificação para pôr uma perna de borrego no forno numa sexta-feira qualquer. Um jantar de amigos chega. Quem sabe se não é por aí que começa a mudança, não numa data religiosa, mas numa noite qualquer, à volta de uma mesa, com o produto certo e a companhia certa.
Engenheiro agrónomo e mestre em Bionergia. É diretor-geral da Trevo – Floresta, Agricultura e Ambiente, Lda. e produtor de amêndoas, nectarinas, alperces e romãs, promovendo práticas sustentáveis e o desenvolvimento agroflorestal no Alentejo.
As Crónicas Rurais incidem sobre temas relacionados com o mundo rural, com uma periodicidade semanal. São asseguradas por um grupo de autores relacionados com o setor, que incluem Afonso Bulhão Martins, Cristina Nobre Soares, Daniel Montes, Filipe Corrêa Figueira, Marisa Costa, Pedro Miguel Santos e Susana Brígido e Tomás Roquette Tenreiro.
