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O cidadão preso no próprio noticiário

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14.09.2026

Em 1966, quase ninguém poderia imaginar um telefone capaz de conhecer nossos hábitos, escolher nossas notícias e decidir a ordem em que o mundo apareceria diante de nossos olhos. Ithiel de Sola Pool imaginou algo mais importante: o efeito político dessa escolha. Sessenta anos depois, Jill Lepore recuperou no Guardian aquela advertência esquecida.

Pool previra jornais feitos sob medida para cada leitor e percebeu o preço possível dessa comodidade: cidadãos progressivamente separados uns dos outros, alimentados por informações diferentes e privados, pouco a pouco, de uma cultura comum. Ele enxergou antes de nós que o problema decisivo não seria a quantidade de informação, mas a possibilidade de cada pessoa viver cercada apenas pela parte do mundo que lhe agradasse.

É difícil reler essa previsão sem reconhecer nossa rotina. Pool descreveu, antes das redes sociais, um leitor que escolheria assuntos, aprofundaria o que lhe interessasse e descartaria o restante. Hoje essa seleção deixou de pertencer inteiramente ao leitor.

Sistemas observam cliques, registram permanências, aprendem humores, percebem irritações e devolvem uma realidade cada vez mais parecida com aquilo que já demonstramos desejar. O risco começa precisamente aí: confundir familiaridade com verdade e repetição com conhecimento.

A realidade sob encomenda

Durante anos tratamos as bolhas informativas como acidente produzido por Facebook, X, TikTok e outras plataformas. A genealogia recuperada por Lepore impede essa explicação confortável. O risco estava visível no nascimento da era digital. Em 1958, Pool já........

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