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O segundo turno e o lugar do Brasil no mundo

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21.10.2026

Uma eleição em aberto

O tema de hoje, poucos dias depois do primeiro turno, é o significado econômico e geopolítico do segundo turno. Quais são as implicações, para a economia e para as relações internacionais do Brasil, do embate que teremos em 25 de outubro? Vou dar mais peso ao aspecto geopolítico, porque me parece o mais grave. É o que mais ameaça o Brasil neste segundo turno: o efeito que a eleição terá, dependendo de quem for eleito, sobre a posição internacional do país num momento muito especial da situação mundial.

O primeiro turno foi apertado, 47% a 45%. É uma margem relativamente pequena, e a virada é perfeitamente possível. Não está nada garantido que Flávio Bolsonaro já esteja eleito. Vai depender muito do que acontecer entre o primeiro e o segundo turnos, como sempre, mas sobretudo neste caso, em que a disputa foi tão apertada.

Não vou falar aqui como neutro. Sou eleitor do Lula e vou votar nele de novo no segundo turno. Acho um absurdo ficar neutro. Como diz a famosa frase atribuída a Dante Alighieri, o pior lugar do inferno está reservado àqueles que permanecem neutros em tempos de crise. É o caso. Vivemos uma crise sem precedentes, com ameaças sem precedentes ao país. Mesmo que eu achasse o Lula um desastre, o que não acho, escolheria o desastre menor. E, no meu entender, o desastre Flávio Bolsonaro é imenso.

Por isso não compreendo quando ouço jovens dizerem que nem vão votar, porque Lula e Flávio Bolsonaro estariam “na mesma prateleira”. A falta de discernimento que alguns brasileiros demonstraram nesta eleição, a falta de conhecimento do que os candidatos representam, é realmente estarrecedora. Um amigo, economista conhecido de esquerda, me contava que o filho não foi votar porque acha que tudo é ruim. Um rapaz que teve em casa, a vida inteira, o diálogo com o pai! Não posso falar muito: na minha própria família há quem seja neutro e já houve quem votasse em Bolsonaro.

Vou começar pela economia e depois passar ao aspecto internacional, ao qual reservarei mais tempo.

O que Lula representa para a economia

Lula já mostrou o que pode oferecer, e não acredito que num eventual quarto mandato ele faça algo radicalmente diferente do que fez no terceiro. Como caracterizar essa política econômica? Razoável, equilibrada, sem grandes lances, basicamente responsável. Não arriscou muito. Refletiu o fato de o governo se apoiar numa aliança ampla, que inclui vários setores não ligados à esquerda, o que limita a capacidade de manobra de um governo sustentado por uma coalizão tão heterogênea. Além disso, o governo não tinha maioria no Congresso.

Os dados macroeconômicos não são ruins. Houve crescimento em torno de 3% do PIB no último ano do governo Bolsonaro e nos três primeiros anos do Lula 3. Agora há uma desaceleração em curso, bastante nítida, mas a inflação está sob controle. Deve ficar em torno de 5% neste ano, apesar dos choques externos decorrentes do ataque ao Irã. É acima do teto da meta, mas não é nada de alarmante.

As pessoas costumam não levar em conta que o Banco Central pratica juros reais absurdos, com a Selic nas alturas, mesmo com toda a diretoria, presidente e diretores, já nomeada pelo presidente Lula. Dito isso, Gabriel Galípolo conseguiu modificar um pouco para melhor o regime de metas: hoje a meta de inflação é contínua, e não mais referida ao ano-calendário. É uma melhora pequena, mas não desprezível.

Na política fiscal, considero realmente um exagero dizer que o Brasil vive uma crise fiscal, como se propaga muito na mídia corporativa. Temos problemas: a dívida é alta e está crescendo. Mas o resultado primário das contas públicas, que é a parte mais sob controle do governo, está, para o setor público consolidado, em torno de zero, com um déficit da ordem de 0,6% do PIB. A origem do déficit e do crescimento da dívida é a carga de juros suportada pelo setor público, que reflete o nível da dívida e a taxa de juros praticada no Brasil. Essa dinâmica o governo Lula não conseguiu alterar.

Há aqui uma distinção a fazer. Na execução do arcabouço fiscal, o governo conseguiu felizmente excluir uma série de itens da meta. Uma coisa é o déficit medido para fins do arcabouço; outra é o déficit efetivo. Quando falo em um déficit primário pequeno, de 0,6% do PIB, falo do déficit efetivo.

Se eu tivesse de escolher uma variável econômica brasileira que está fora do padrão normal de sanidade, seria, sem dúvida, a taxa de juros. O Brasil tem, quando não o juro real de curto prazo mais alto do mundo, um dos mais altos. Um juro dessa magnitude só beneficia quem tem riqueza financeira expressiva. Quem a tem pode viver tranquilo sem levantar um dedo. Muito empresário acaba preferindo vender sua empresa, por exemplo a um grupo estrangeiro, e aplicar confortavelmente o resultado no mercado financeiro. Aqui o rentista tem liquidez, risco baixo e juro alto ao mesmo tempo.

O Brasil é também o paraíso fiscal dos super-ricos, que, graças às deficiências da legislação e às possibilidades de planejamento tributário, nome elegante para evasão e sonegação, pagam pouco imposto. Fernando Haddad conseguiu tomar algumas medidas para atenuar o problema, mas não chegou a resolvê-lo.

Contudo, o meu propósito hoje não é fazer críticas ao governo Lula na área econômica. Diante do que se avizinha, talvez venhamos a pensar que, quando Haddad era ministro, éramos felizes e não sabíamos.

Em resumo, foi um governo basicamente razoável na economia. Não fez nada de dramaticamente errado. Fez menos do que se gostaria, mas não cometeu nenhuma barbaridade. O desemprego aberto caiu para níveis recordes de baixa, a inflação está controlada, o crescimento do PIB foi razoável e o déficit primário efetivo é pequeno. De 2027 em diante, caso Lula seja reeleito, não acredito que o quadro macroeconômico se modifique muito.

O que esperar de um governo Flávio Bolsonaro

E o que acontecerá com a economia se Flávio Bolsonaro for eleito? A primeira coisa que me chama a atenção no candidato, e por consequência na equipe que ele provavelmente conseguirá montar, é o despreparo. Ele não teve nenhuma experiência anterior relevante para ser presidente da República. Foi a vida inteira parlamentar, primeiro estadual, depois federal, e parlamentar medíocre, que não se destacou por nenhuma atuação importante, assim como o resto da família, inclusive o pai. Não tem experiência executiva.

Que história é essa, que agora se implantou no Brasil, de achar que alguém pode ir direto para a Presidência da República? Tivemos no primeiro turno não só o Flávio, mas também Renan Santos e Augusto Cury, sem currículo prévio que justificasse uma candidatura presidencial. Os que tinham trajetória eram Ronaldo Caiado, Romeu Zema e o próprio Lula, que tem tarimba e experiência ampla. É uma grande vantagem dele, inclusive nas questões........

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