Flávio Bolsonaro e o triunfo da linguagem sobre os fatos
Há um paradoxo aparente no cenário político brasileiro. Apesar de denúncias, vazamentos de ligações, relatórios de investigações e apontamentos da Polícia Federal sobre relações de Flávio Bolsonaro com um banqueiro envolvido em fraudes e com milicianos do Rio, ele segue competitivo. Mais do que isso: continua animando apoiadores que se dizem “contra a corrupção”. À primeira vista, seria uma contradição insustentável. À luz da ciência da persuasão, porém, é um fenômeno previsível. Não estamos diante do triunfo dos fatos, mas do triunfo da linguagem sobre eles.
O primeiro mecanismo é a transformação de uma posição política em identidade. Quando alguém diz “sou contra a corrupção”, não está apenas descrevendo uma opinião. Está reivindicando um lugar no mundo. A diferença entre “combater a corrupção” e “ser contra a corrupção” parece pequena, mas é decisiva. O verbo indica ação temporária; o substantivo e o adjetivo criam um estado permanente de ser.
A partir daí, qualquer ataque ao político de estimação deixa de ser um ataque a uma pessoa e passa a ser um ataque à própria identidade do apoiador. Ceder aos fatos seria admitir, “eu não sou quem penso que sou”. A dissonância cognitiva é resolvida não com autocrítica, mas com reforço da crença.
O segundo........
