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Conservadora ou não, que sorte é poder escolher

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Sou uma privilegiada. Tenho essa noção. Sou privilegiada porque nasci num mundo diferente daquele em que nasceram as minhas avós e a minha mãe. Posso estar, neste preciso momento, a escrever este artigo que está a ler. Posso exercer o meu direito a ter uma opinião, mesmo sendo mulher. Por ter consciência desse privilégio, tenho dificuldade em perceber porque é que algumas mulheres parecem não conseguir ver o seu.

Leia os artigos que quiser, até ao fim.

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Não é novidade para ninguém que cada vez mais temos assistido ao surgimento de movimentos conservadores, incluindo de mulheres conservadoras. É uma tendência que não se vê apenas em Portugal.

Um breve scroll nas redes sociais leva-nos a vídeos de mulheres de avental impecável, a fazer todas as receitas do zero, e a explicar que a verdadeira realização feminina está em cuidar da casa, do marido e dos filhos. Que a mulher deve ser submissa, recatada e do lar. Chamam-lhes tradwives, ou "as esposas tradicionais".

O discurso, de forma geral, passa por dizerem que não se revêem no feminismo e que o papel que a mulher tem hoje na sociedade não é o que devia ser.

Antes de continuar, quero que fique bem claro: se uma mulher quer ficar em casa, tudo bem. Se quer viver de uma forma mais tradicional, tudo bem também. São escolhas de vida, e ainda bem que temos a liberdade de as fazer.

E é precisamente por isso que, quando vejo os vídeos e entrevistas em que dizem que o "papel da mulher" na sociedade (aos seus olhos) está ameaçado, fico sempre com a mesma pergunta: quem as impede de fazerem a vida que querem?

Antes de nós, existiram outras

Se hoje uma mulher pode dizer em canal aberto que as mulheres deviam ter menos direitos, é porque outras mulheres lutaram pelo direito de poderem falar.

Lutaram para poder fazer uma vida sem estar atreladas ao marido. Para que o casamento deixasse de ser a única alternativa para sair de casa dos pais. Para que hoje possamos decidir ter ou não ter filhos. Para que possamos ter uma carreira, avançar nas nossas pesquisas e na nossa arte, sem que ninguém nos retire isso e diga que, afinal, foi o marido que fez, como aconteceu com a escritora Colette, cujos primeiros livros foram publicados com o nome do marido, ou com a pintora Margaret Keane, que teve de provar em tribunal que os quadros que o marido assinava eram dela (ambos os casos deram origem a filmes).

A realidade é que nada disto pertence a um passado assim tão antigo. Tal como a democracia é jovem em Portugal, os direitos das mulheres são ainda mais........

© PÚBLICO