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A democracia está bem, está quase perfeita

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01.07.2026

1.De há uns anos a esta parte tornou-se corrente efabular sobre a doença das democracias. Não exactamente da Democracia mas das democracias – sendo que a primeira é uma entidade ideal à maneira de Platão, existindo essencialmente, e as segundas são a sua sombra imperfeita projectada nas paredes dos parlamentos. Os mais desanimados de entre todas as cabeças cívicas que se questionam sobre o futuro das democracias antevêem a sua morte. Outros, mais condescendentes, afirmam que são tudo efeitos mal conseguidos de sombra e luz. Na ideia destes a Democracia não contém no seu seio nenhum ovo de serpente, pelo contrário, é uma fénix que nunca chega a morrer, fulgurante e imarcescível (oh prodigioso Mário-Henrique Leiria). Estão todos enganados.

A Democracia está melhor do que alguma vez esteve, é possível afirmar que atingiu um acme de perfeição que emociona presidentes e faz inveja à velha da Adiça – aquela que quanto vê quanto cobiça. E percebe-se. A Democracia não está doente nem sequer a perder formosura. Se a Democracia existisse em embalagens de 33cl seria tão vendida como a coca-cola, se fosse às riscas enfeitaria as câmaras municipais. A Democracia é um programa de código aberto e todas as aplicações que se baseiam nele são excelentes. A Democracia é um produto sem açúcar, sem glúten, sem gordura, sem sal, sem cafeína e sem nicotina – é o sistema de governo mais parecido com um frasquinho de prota ou um abacate.

2.Mas porque é que alguns pensadores se preocupam? 

As razões que têm posto em dúvida a saúde das democracias são de dois tipos. 

O primeiro desse conjunto de razões, fazendo fé no que as pessoas dizem, releva de uma excessiva quantidade de defeitos cumulativos e em agravamento nas sociedades democráticas. A pré-falência do estado social, que está a sangrar os sistemas assistenciais e lança sombras sobre o futuro das pensões, é a mais premente. Depois, a imigração brutal que dividiu as sociedades, que alimenta estados dentro dos estados, que espalhou insegurança, violência e, notam ainda as pessoas, aumentou exponencialmente o número de idiotas que acham que tudo isso é mentira. A isso acresce, de novo segundo as queixas, um sufocante estado de prevenção sobre uma coisa chamada discurso de ódio – um estado de tento na língua que tem embaraçado a descrição do encontro de um inquilino com o seu vizinho badocha do 2.º andar, não o que tem uma mulher preta, mas o outro, o que atraca de popa. Depois, e na aparência preenchendo-lhes todos os espaços da paciência ainda vazios, as pessoas referem que estão a ser encharcadas por um tropel de discursos alimentando o medo – as alterações climáticas, as pandemias que hão de vir… – também por delírios que desafiam a inteligência – as teorias de género, a transfiguração dos corpos, a racialização e o remorso colonial… – e, inevitavelmente, alegam sofrer todos os dias o martírio de apanhar com os enjeitados que protagonizam esse outro surto de idiotice. Finalmente, e em relação com aquelas predisposições do ambiente social, queixam-se as pessoas de uma fiscalidade insustentável e a consequente perda do conforto económico. E, se ainda podiam habituar-se à falta de juízo, parecem estar a ter mais dificuldade em se habituarem à falta de dinheiro.

Existe um segunda ordem de razões que tem posto........

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