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Portugal vale bem uma missa

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14.02.2026

Em que pensaria Henrique de Navarra naquela manhã de 25 de Julho de 1593, enquanto a pedra fria da Basílica de Saint-Denis lhe devolvia o eco ritmado dos próprios passos? Os sinos badalavam lentos no ar, graves e prolongados, misturando-se com o perfume adocicado e espiralado dos incensos e o odor morno das ceras derretidas. A luz atravessava os vitrais góticos em feixes vermelhos, azuis e dourados que vinham desfazer-se, como poças de tinta em lenta fusão, no pavimento cinzento da nave. Ajoelhado sobre a almofada de brocado diante do altar, talvez o murmúrio distante dos cânticos lhe tivesse trazido à memória o rumor antigo das multidões em pânico e dos bandos armados e inflamados que as perseguiam pelas ruas.

É plausível imaginar que a sua mente tivesse feito a travessia daquela manhã solene em Saint-Denis até àquela noite sangrenta em Paris, quase vinte anos antes: 24 de Agosto de 1572, noite de São Bartolomeu. Nos passos que agora ressoavam sob as abóbadas da basílica ecoavam os cascos dos cavalos martelando as vielas estreitas; nos salmos entoados, os gritos abafados; na solenidade do rito, o tropel da morte: o baque surdo dos corpos contra a pedra, o rumor espesso do Sena engolindo cadáveres ainda quentes de vida. Entre o incenso daquela manhã e o ferro daquela noite, entre a luz policromada dos vitrais de Saint-Denis e o breu abismal das ruelas parisienses, estendia-se toda a França dilacerada pelas guerras de religião.

Henrique não estava em Saint-Denis como Paulo na estrada de Damasco, fulminado por uma epifania súbita e divina. A sua conversão não era paulina, mas política; não era espiritual, mas estratégica; não era real, mas realista. Ao contrário da de Paulo, a conversão de Henrique não nascia do milagre interior da salvação pessoal, mas da lucidez amarga da sobrevivência colectiva. Aquela genuflexão em Saint-Denis era, acima de tudo, um passo:  um passo decisivo para assegurar o trono francês após anos de sangue derramado, fogo ateado e reino dividido. A salvação da alma podia esperar: agora era urgente salvar a França.

Na situação jurídica paradoxal em que Henrique se encontrava (detinha legitimidade dinástica ao trono, mas carecia de legitimidade confessional e, portanto, social), a distância entre o direito sucessório e o poder efectivo não poderia ser ultrapassada por mais sangue derramado em Paris, mas apenas pela palavra de abjuração em Saint-Denis, prelúdio da unção régia que viria a selar, no ano seguinte, a sua legitimidade plena. Nascido príncipe huguenote e formado na austera disciplina calvinista, Henrique atravessava agora o limiar que separava o protestantismo minoritário da França católica. Essa passagem, da Reforma para Roma, era o verdadeiro preço da coroa. O trono começava na outra margem da conversão. Paris impunha a travessia: Saint-Denis era o seu Rubicão.

Daí a fórmula, apócrifa mas nem por isso menos canónica, precursora de todo o realismo político: “Paris vale bem uma missa” (Paris vaut bien une messe). Síntese, até hoje insuperável, da renúncia simbólica a uma convicção pessoal em nome da preservação de um bem maior: o corpo político. O gesto de Henrique IV ilustra, assim, um princípio central da arte de governar: a sobrevivência e a estabilidade da comunidade política exigem, sobretudo nas horas de crise, a hierarquização lúcida de valores e a renúncia, não menos lúcida, aos absolutos ideológicos.

Séculos depois, era Winston Churchill, envolto na fumarada espessa de sucessivos charutos, quem se detinha diante de mapas onde o vermelho imperial, usado pela cartografia britânica, ainda cobria oceanos e continentes. Com a consciência lúcida – e, por isso mesmo, trágica – da irreversível deslocação do poder para o outro lado do Atlântico, Churchill via agora as possessões imperiais britânicas como uma herança em lenta dissolução. Após descer aos círculos mais fundos e mais escuros do inferno de Dante entre 1939 e 1945, a Europa surgia-lhe esgotada, exangue e inevitavelmente incapaz de sustentar por muito mais tempo o peso dos seus impérios e de suster as aspirações nacionalistas das suas populações. Se a Primeira Guerra Mundial engolira quatro impérios concorrentes do britânico, a Segunda, ainda mais insaciável, não pouparia o de Sua Majestade.

Diante daqueles mapas, Churchill talvez ainda percorresse........

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