De Be’eri a Teerão: duas manhãs de Sabat
Na manhã de 7 de Outubro de 2023, no kibbutz de Be’eri, no sul de Israel, o sábado nascia como tantos outros, sob o signo sereno da repetição: a luz a espreguiçar-se lentamente sobre os campos, o rumor doméstico das cozinhas, a promessa modesta do descanso do sétimo dia. Era Sabat. Nada fazia antever que aquele cenário pastoral seria dilacerado, com a nudez obscena e feroz dos flagelos bíblicos, por uma irrupção de violência e ódio primitivos que não encontra paralelo senão nos mais arrepiantes pogroms do passado: execuções e raptos, imolações e incêndios, decapitações e violações, uma orgia satânica de caça ao judeu, uma madrugada de Valpurgis em pleno deserto do Levante, à qual não escaparam nem homens nem mulheres, nem idosos nem crianças, nem sobreviventes do Holocausto nem recém-nascidos. A invasão do Hamas foi mais do que uma incursão: foi uma regressão. Como se o próprio tempo dos homens, por longas e penosas horas, tivesse recuado ao seu ponto abissal, pré-moral, onde habitam, dominam e dão largas às suas taras mais grotescas os monstros mais pavorosos da nossa natureza.
Em poucas horas, aquela periferia agrícola profanada tornar-se-ia o eixo moral em torno do qual o mundo – dos homens, dos deuses e dos monstros – começou a girar. E o lamento de Be’eri, sufocado e fantasmagórico, propagar-se-ia, como um abalo sísmico, por toda a região, de Gaza a Damasco, de Beirute a Doha, de Jerusalém a Teerão, cujas fundações, mais de dois anos depois, viriam a estremecer com a potência devastadora de uma bomba americana caída dos céus. A guerra que começara numa manhã de sábado nas soleiras de um pacato kibbutz alcançava finalmente o vértice – e simultaneamente o vórtice – do poder que a planeara, iniciara e alimentara. Perante os olhos atónitos do mundo, parecia abrir-se na Pérsia, uma vez mais, o Livro de Ester: o projecto de aniquilação regressava ao seu ponto de origem: o decreto de morte lançado sobre o povo judeu fez ricochete num objecto antigo e misterioso, descreveu um arco e voltou para trás, abatendo-se, com estrondo, sobre a cabeça do Líder Supremo que o decretara. Haman, devotando a sua vida à morte dos judeus, jaz mais uma vez na própria forca que preparara para Mardoqueu. Foi justamente este episódio bíblico ocorrido na antiga capital persa que deu origem à festa judaica de Purim, celebração da reviravolta do destino, em que o édito de morte se volta contra o seu autor. Na manhã de sábado em que o aiatola Khamenei tombou na capital da Pérsia moderna, o povo judeu festejava, precisamente, o Purim.
No entanto, muitos, sobretudo no Ocidente, apressaram-se a inscrever o pogrom de 7 de Outubro na categoria cómoda de mais um episódio de um conflito prolongado, cuja resolução, insistiam, só poderia residir na repetição mântrica das platitudes vazias sobre o “processo de paz” e da “solução de dois Estados”. Enquanto centenas de judeus estavam ainda a ser chacinados em Israel ou arrastados como reféns para Gaza, as grandes avenidas da Europa e da América começavam já a encher-se de idiotas úteis de Sinwar e de Khamenei a bradar “do rio até ao mar”.
Para os judeus, porém, aquela manhã teve outro significado: a recordação das duas principais lições que atravessam a memória judaica desde a catástrofe europeia do século XX: uma, a de que o extermínio pode voltar a acontecer; e outra, a de que, por isso mesmo, não pode voltar a acontecer. A sua permanente possibilidade histórica é, justamente, o fundamento da sua perpétua impossibilidade moral. Os “especialistas em Médio Oriente” falharam a captação do essencial daquela manhã: nada voltaria a ser como antes. O mundo – dos homens, dos deuses e dos monstros – nunca mais seria o mesmo.
Para desvendarmos a arquitetura invisível deste momento inaugural, temos de alargar o horizonte e deslocar o olhar da lâmina para a mão que a guia. O ataque foi executado por terroristas do Hamas, mas a sua inteligibilidade plena nunca esteve confinada à Faixa de Gaza. Temos de olhar para além da linha de fronteira, para o centro de gravidade que há décadas........
