Os Cinco e a sucessão de Montenegro
António Costa era primeiro-ministro há dois anos e meio quando teve de avisar em pleno Congresso do seu partido: “Ainda não meti os papéis para a reforma.” A partir daí foi tratando — de uma forma meio negligente, meio infantil — a sua sucessão. Numa travessura, preparada a meias com Carlos César, decidiu mesmo colocar todos os seus quatro sucessores na Mesa do Congresso: Pedro Nuno Santos, Fernando Medina, Mariana Vieira da Silva e Ana Catarina Mendes. Só um deles chegou a líder e entretanto já não é.
Percebe-se que os eleitos, em particular os primeiros-ministros, tenham dificuldade em falar da sua sucessão. António Costa tinha a ambição de bater o recorde de Cavaco Silva, o que não conseguiu. Luís Montenegro também terá na cabeça ficar no cargo o equivalente a dois mandatos completos, numa perspetiva de década. Falar em sucessão seria admitir a saída a curto médio-prazo o que, mandam os manuais, nenhum líder deve fazer.
Luís Montenegro sabe que provavelmente sucederá a Luís Montenegro, mas é difícil de acreditar que não pensou um único minuto em sucessão quando, no último Congresso, chamou para vice-presidentes Carlos Moedas, Pedro Duarte e Sebastião Bugalho, que também é porta-voz do partido. Em condições em que fosse possível uma passagem de testemunho direta — mesmo que o atual primeiro-ministro se aguente até 2033 ou outra qualquer data depois do Homem voltar a pisar a Lua — o sucessor viria da Comissão Política Nacional permanente ou, no limite, da alargada.
Comecemos pela linha montenegrista. O preferido de Luís Montenegro para a sua própria sucessão ninguém tem dúvidas de que seria Hugo Soares. É ele o número dois de facto do partido e uma espécie de ministro sem pasta, que não precisa de estar no Governo para ser a pessoa mais influente no Executivo a seguir ao próprio primeiro-ministro. Tem também a vantagem de ser o novo homem do aparelho do PSD, com uma extensão e eficácia que não se via desde Marco António Costa ou Miguel Relvas. Os críticos internos apontam-lhe como pontos negativos a impulsividade, o perfil mais irascível e o facto de ter alegadamente menos tração junto do eleitorado — algo que ninguém pode comprovar porque nunca foi efetivamente a votos como candidato principal (e o que há nessa matéria é ter vencido duas vezes o distrito como cabeça de lista em Braga). Resta também saber se o próprio Hugo Soares quereria.
Além do todo-poderoso secretário-geral, os presidentes da câmara de Lisboa e do Porto, pela dimensão das autarquias que gerem e das vitórias que alcançaram, são sempre potenciais candidatos à liderança do partido. A........
