Em todo o lado menos nas estatísticas
Em 1987, Robert Solow olhou para quatro décadas de informatização e produziu a piada mais citada da história do crescimento económico: vê-se a era dos computadores em todo o lado, exceto nas estatísticas da produtividade. Trinta e nove anos depois, estamos a fazer o remake com um orçamento maior. Centenas de milhões de pessoas consultam diariamente uma inteligência artificial; ela escreve código, lê exames médicos, redige contratos, dá explicações a crianças — e as estatísticas da produtividade continuam, mais uma vez, serenamente indiferentes. Entretanto, as previsões divergem entre si por uma ordem de grandeza, o que é, em si mesmo, revelador: a Goldman Sachs projeta um ganho de 7 por cento no PIB mundial; a McKinsey vê até 3,4 pontos adicionais de crescimento anual; e Daron Acemoglu, fazendo a aritmética tarefa a tarefa, chega a um ganho de produtividade total dos fatores de, no máximo, 0,66 por cento — não por ano, mas no total, ao longo de uma década, cerca de 0,05 por cento ao ano. Quando as estimativas de pessoas sérias sobre o mesmo objeto diferem por um fator de cem, a pergunta interessante não é apenas quem tem razão. É porque é que o objeto é tão difícil de ver. Penso que a resposta é que o PIB nunca foi construído para o ver — e que isto, na sua maior parte, não é um escândalo, mas uma lição sobre o que o PIB é. Deixem-me apresentar o argumento em sete partes e explicar, no fim, porque é que nada disto significa que a revolução seja falsa.
Onde a IA já aparece: na fatura
Comecemos pelo único sítio onde a IA está inequivocamente presente nas contas nacionais — que não é onde os profetas prometeram. Está no investimento: na construção da máquina, não ainda no trabalho da máquina. Os números deixaram de ser subtis. Jason Furman, de Harvard, fez a decomposição para o primeiro semestre de 2025: o investimento em equipamento de processamento de informação e software representou cerca de 4 por cento do PIB americano e explicou 92 por cento do seu crescimento; retire-se essa parcela e a maior economia do mundo cresceu 0,1 por cento anualizado — um erro de arredondamento. A Renaissance Macro estimou que em 2025, pela primeira vez desde que há registo, o contributo em dólares da construção de centros de dados para o crescimento ultrapassou o do consumidor americano — sendo o consumidor dois terços da economia. No primeiro trimestre deste ano, o investimento ligado à IA carregava cerca de três quartos de um crescimento de 2,1 por cento, e a Reserva Federal de St. Louis calcula que o investimento em IA forneceu 39 por cento do crescimento marginal do PIB americano nos últimos quatro trimestres — contra 28 por cento do setor tecnológico no pico da bolha dot-com. Os cinco maiores investidores anunciaram cerca de 700 mil milhões de dólares de investimento este ano, perto de 5 por cento do PIB, uma fatia do investimento nacional vista pela última vez quando se assentavam os caminhos-de-ferro. Um autor de newsletters resumiu a macroeconomia com precisão insuperável: a economia americana pode bem ser apenas três centros de dados de IA escondidos numa gabardina.
Entenda-se o que isto significa e o que não significa. O PIB está a medir o custo da revolução da IA com fidelidade perfeita — o betão, os chips, as turbinas, a eletricidade (que, como nota secamente Acemoglu, soma ao PIB medido quer aumente quer não o bem-estar de alguém). O que ainda não está a medir é o retorno. A charrua aparece antes da colheita; sempre apareceu. A pergunta a que este artigo responde é porque é que a colheita, quando vier, se vai registar de forma muito mais ténue do que a charrua — e porque é que isso é sobretudo aritmética, não fracasso. E há mais uma ironia de medição dentro da própria fatura: o PIB é produto interno bruto — conta o investimento antes da depreciação — e este capital é invulgarmente mortal. Um aterro ferroviário serviu um século; uma GPU de fronteira é amortizada em três a cinco anos. Uma fatia significativa da linha de investimento que hoje explode é, por construção, o abate contabilístico de amanhã — o que significa que mesmo o único sítio onde a IA aparece inequivocamente, no PIB, sobrestima o seu contributo para aquilo que a economia vai efetivamente conservar.
1 A aritmética do peso que desaparece
Quando um setor se torna radicalmente mais produtivo, os seus preços caem — e o seu peso no PIB encolhe. O........
