Este é o tempo dos radicais, moderados
Vivemos tempos de crescente polarização. Em praticamente todas as áreas da nossa vida, as posições extremam-se e o espaço para o diálogo e para o compromisso parece ser cada vez menor. É assim na política mas também no desporto, no café, no trânsito, etc. As redes sociais vieram ampliar exponencialmente aquilo a que hoje chamamos tribos, que, na verdade, sempre existiram ao longo da História. A diferença é que agora tudo acontece a uma velocidade impressionante, com a indignação a sobrepor-se frequentemente à reflexão.
Por toda a Europa, e também em Portugal, multiplicam-se as manifestações por melhores condições de vida, com particular destaque para a habitação, que constitui, sem dúvida, um dos maiores problemas sociais do nosso tempo. E as pessoas têm na substância do problema total razão.
São manifestações legítimas, que traduzem dificuldades reais de milhares de pessoas e famílias. No entanto, aquilo a que temos assistido é a uma crescente tentativa de instrumentalização deste descontentamento pelos extremos políticos.
À esquerda do Partido Socialista, há quem procure aproveitar as ruas para fazer uma espécie de prova de vida política, procurando recuperar um protagonismo que os resultados eleitorais não têm permitido alcançar. À direita, particularmente ao Chega, interessa sobretudo o confronto, a confusão e a instabilidade.
A História ensina-nos que os períodos de maior instabilidade social e política são terreno fértil para o crescimento dos extremismos. Foi assim na Europa dos anos 30 do século passado, quando milhões de cidadãos, perante o medo e a insegurança, se mostraram disponíveis para abdicar de parcelas importantes da sua liberdade em troca de promessas de ordem e estabilidade.
É precisamente por conhecer estas lições da História que considero que este é o tempo dos moderados. Dos moderados radicais.
O Partido Socialista e o seu secretário-geral, José Luís Carneiro, encontram-se hoje numa posição particularmente difícil. A posição de quem tem de escolher entre o aplauso fácil de uma oposição radicalizada e a responsabilidade de contribuir para a estabilidade democrática.
A decisão de permitir a viabilização do Orçamento do Estado, através da abstenção, é um exemplo dessa responsabilidade.
Portugal teve eleições legislativas em 2022, em 2024 e em 2025. Se voltássemos a ter eleições em 2027, estaríamos perante um país praticamente em campanha eleitoral permanente.
Ora, nenhum Governo, seja de que partido for, consegue resolver os problemas estruturais do país se não tiver um mínimo de tempo para governar. A instabilidade permanente impede o planeamento,........
