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Um mundo às avessas

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22.02.2026

Utopia, apesar de ser referido pelo autor como nome de uma ilha, significa literalmente “nenhures”, um lugar que não existe. O termo remete para uma “realidade irreal”, construída precisamente para denunciar a ilegitimidade do mundo tal como ele se apresenta. Estes nomes de construção neológica cumprem uma função crítica: revelar um mundo às avessas.

Thomas More, autor de Utopia (1516), recorre ao relato imaginado de Rafael Hitlodeu para denunciar os problemas sociais e políticos da Inglaterra Tudor, sob o reinado de Henrique VIII. Critica a desproporção do sistema penal, que punia pequenos furtos com a morte; a precarização dos camponeses causada pelo movimento dos enclosures (“cercados”), que transformou terras comunais em propriedade privada, expulsando milhares para as cidades e criando uma massa de mão de obra barata para a Revolução Industrial; a falta de lisura do clero e o maquiavelismo dos monarcas, obcecados por guerras de conquista e acumulação de riqueza em detrimento do bem comum.

O Livro I apresenta esse ambiente negativo como uma tese: uma crítica severa a uma sociedade marcada pela injustiça social, pela má distribuição da propriedade e por leis que protegem os poderosos. O Livro II funciona como antítese: descreve uma sociedade alternativa, organizada racionalmente, onde a propriedade é comum, o trabalho é regulado e o bem coletivo prevalece sobre o interesse individual. Contudo, essa idealização é deliberadamente tensionada pela sua própria ficcionalidade. More não propõe um modelo político imitável, mas um instrumento crítico. A sua utopia só poderia funcionar mediante a abolição da propriedade privada — condição que ele  sabia ser impraticável.

Diplomata e humanista, More não era um fanático religioso empenhado em instaurar o paraíso na terra. Pelo contrário, separava........

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