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O Fundo Kati e a intermitência dos regressos

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29.08.2026

Em meados de 1467, Ali Ben Ziyad al-Quti partiu de Toledo rumo ao exílio. Ia com a família, alguns servos e uma biblioteca que não cabia inteiramente nos baús que a transportavam. Não porque os manuscritos fossem muitos — embora o fossem —, mas porque cada folha levava consigo uma espessura que não se mede em peso: vozes antigas, leis, genealogias, poemas, fórmulas, comentários de sábios, contas de mercadores, nomes de árvores, desenhos de constelações. Enrolada em pergaminhos e dobrada em cadernos, Ali Ben Ziyad al-Quti levava uma parte do mundo.

O destino era Tombuctu, remoto e poeirento, terra de vento, escassas chuvas e areia capaz de entrar nos livros como nas casas, nos olhos e na memória. Levava documentos em castelhano, hebraico e árabe, procedentes da sua biblioteca. Talvez tivesse a sensação de não transportar apenas uma herança, mas a própria possibilidade de a herança sobreviver. Cada letra conservada parecia uma pequena defesa contra o fim; cada página, um abrigo para tudo aquilo que a violência desejava desalojar.

Os séculos chamariam Fundo Kati a essa constelação de manuscritos. Cresceria devagar, de mão em mão, de geração em geração, até reunir milhares de volumes de natureza diversa. Recolher-se-ia em baús, caves, torres, minaretes, paredes falsas e troncos ocos. Conheceria a precariedade dos que sabem que uma biblioteca não se salva de uma vez para sempre. Salva-se todos os dias: ao fechar uma arca, ao atravessar uma fronteira, ao confiar um volume a alguém que talvez não consiga lê-lo, mas reconhece a obrigação de o proteger.

Por fora, entre muralhas e pátios, Tombuctu ardia por vezes em gritos, desmandos, sangue vertido ao acaso do ódio. Mas, dentro dos baús, dormiam os poemas, as leis, as fábulas, as alegrias botânicas e os nomes das estrelas. Dormiam sem saber que dormiam. Ou talvez, à sua maneira, o soubessem. Os livros não dormem como os corpos: aguardam, conservam uma vigília imóvel, uma paciência feita de fibras, tinta e silêncio. Basta que uma mão os abra para que tudo volte a mover-se.

Um «regresso» contém já uma pequena promessa. Regressar não é apenas voltar ao lugar donde se partiu, mas reaparecer diante daquilo que julgávamos perdido e descobrir que, entretanto, também nós mudámos. Nenhum exilado regressa verdadeiramente à cidade que deixou: as ruas parecem mais estreitas ou mais........

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