Da inveja
Há emoções que as pessoas confessam facilmente.
Medo. Ansiedade. Tristeza. Frustração.
E depois há a inveja.
Quase ninguém admite sentir inveja.
Mas basta observar a política, as redes sociais, as organizações ou mesmo muitas relações pessoais para perceber que ela está em todo o lado.
A inveja é provavelmente uma das emoções mais negadas da vida humana moderna – precisamente porque continua a ser uma das mais poderosas.
Durante muito tempo, a tradição moral e religiosa tratou a inveja como um vício moral menor, uma fraqueza de carácter ou um defeito espiritual. Mas talvez essa interpretação seja insuficiente.
Do ponto de vista evolucionista, a inveja não surgiu por acidente.
Nem é um simples “erro” psicológico.
A inveja é um mecanismo adaptativo de comparação social.
Durante quase toda a história humana, viver significava competir permanentemente por recursos escassos, como alimento, proteção, alianças, parceiros sexuais,
estatuto, reputação e acesso ao poder.
Num pequeno grupo ancestral, perceber rapidamente que alguém tinha mais recursos, maior prestígio ou mais influência podia ser literalmente uma questão de sobrevivência.
Quem ignorasse sistematicamente a própria posição relativa no grupo arriscava-se a perder acesso a cooperação, proteção ou oportunidades reprodutivas.
É por isso que os seres humanos não avaliam apenas aquilo que têm.
Avaliam sobretudo aquilo que têm relativamente aos outros.
E talvez seja aqui que começa uma das grandes ilusões modernas.
A modernidade prometeu abundância material. E, em muitos aspetos, cumpriu.
Nunca tivemos tanta tecnologia, tanto conforto, tanta segurança física ou tanto acesso à informação. Em termos históricos, a esmagadora maioria das pessoas vive hoje melhor........
