Contra o cosmopolitismo
1 As filosofias universais
Embora filósofos clássicos como Platão, Aristóteles ou Kant encantem, por vezes, os mais novos, o filósofo que, ao longo dos anos, mais estimulou os meus alunos ainda está vivo. Trata-se de Peter Singer, popular sobretudo pelo movimento de libertação animal, mas também conhecido por posições polémicas quanto ao infanticídio ou à eutanásia. O seu pensamento, de base utilitarista, é um bom exemplo das filosofias da Razão ou universalistas, neste caso aplicadas à Ética: Singer procura, através de argumentos racionais, mover-nos para a ação certa.
Um exemplo? Consideremos o dilema com que Singer abre o seu livro A vida que podemos salvar:
«A caminho do trabalho, o leitor passa perto de um pequeno lago artificial. Em dias de calor, as crianças, por vezes, brincam no lago, onde a água lhes dá pelos joelhos. Porém, o tempo hoje está fresco, além de que é cedo, pelo que fica surpreendido ao ver uma criança chapinhar no lago. Aproximando-se, vê que é muito jovem, não tem mais de dois anos de idade, e parece muito agitada, incapaz de se manter de pé ou de sair do lago. Procura os pais ou a ama, mas ninguém está por perto. A criança é incapaz de manter a cabeça fora de água por mais de alguns segundos de cada vez. Se não entrar no lago e a puxar para fora, é provável que se afogue. Entrar na água é fácil e seguro, mas arruinará os sapatos novos que comprou há apenas alguns dias e vai ficar com o fato molhado e cheio de lama. Quando entregar a criança a alguém que seja responsável por ela e tiver mudado de roupa, estará atrasado para o trabalho. Que deve fazer?»
A resposta dos alunos é imediata: salvar a criança, mesmo que isso signifique chegar atrasado ao trabalho ou estragar os sapatos novos. Mas se a resposta parece óbvia, é porque um filósofo quer algo mais. Neste caso, Singer pretende extrapolar desta situação anedótica uma regra de comportamento moral mais ampla: da mesma........
