menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Sangue, suor e lágrimas

16 0
yesterday

Lisboa, Porto, Berlim, Munique, Estugarda, Frankfurt, Nice, Marselha, Paris, Dublin, Zurique, Milão, Bilbao, Barcelona, Madrid. Eu ia começar por dizer que por todo o lado há um ponto em comum, que é o facto de a extrema-esquerda saber perfeitamente como identificar um ou vários problemas concretos para os manter suficientemente inflamados até que tudo arda à sua volta, mas talvez tenha de fazer uma ressalva: é evidente que quem não consegue mesmo pagar uma casa tem um problema real (que, já agora, é um problema bem mais grave do que quem consegue pagar uma casa queixando-se apenas de que a mesma é cara). Como é evidente que quem estuda em escolas a cair aos bocados tem razões para exigir melhor (eu andei em várias, dispenso as lições de moral de gente que não tem lugar de fala, como se diz por aí), e por aí adiante. Mas sucede que nenhuma reivindicação, por mais justa que seja, confere mandatos para destruir, agredir, incendiar ou substituir as instituições democráticas pela soberania dos que conseguem ocupar uma praça.

Por toda a Europa, Portugal incluído, porque a surpreendente coincidência desta vaga de protestos também nos arrastou para lá, coexistiram protestos pacíficos e episódios de violência grave, como os que vimos em França ou na Alemanha. Naturalmente, confundir todos os que se manifestam, por mais erradas que sejam as suas ideias ou propostas, com os opositores do Estado de Direito, da democracia liberal ou do mundo ocidental, seria um disparate. Mas também é verdade que a justiça de uma causa não torna legítimo tudo o que se faça em seu nome para lá das instituições, não é a bondade de um protesto que concede a todos os radicais a imunidade legal ou mesmo moral. E o que tem estado em causa desde o início é o carácter indefinido no tempo em que os acampamentos se anunciavam, a forma como o espaço público foi apropriado por privados e o conflito de interpretações jurídicas dirimível por tribunais. Pensava que isto era uma daquelas coisas que não seria necessário dizer, mas pelo que tenho visto estava errado.

(A decisão judicial entretanto proferida tem o mérito de ter sido proferida, lá está, por um tribunal, mas não deixa de conter nela, no juridiquês habitual, a origem de interpretações diversas, que só poderão ser dirimidas por um tribunal superior, quando podiam ter ficado cabalmente resolvidas por este. Isso, porém, não invalida o facto de que o MAI e o Governo deviam ter assumido a sentença como uma derrota e ficar a esperar para ver o que sai dos acampamentos. Ninguém sai vitorioso disto: nem os grupos das acampadas, nem o Governo, nem os tribunais. Mas deixemos isso para outro dia.)

O que me interessa é discutir o terreno onde esta contestação cresce. Mais do que os protestos, e este Big Brother das tendas ou dos saques a que temos assistido ao minuto por essa Europa inteira, ou mesmo mais do que os problemas que lhes estão na base, interessa-me mesmo muito cavar um pouco mais e tentar ir à raiz do problema. E o que temos bem lá no fundo de tudo é algo que me parece incontestável: a Europa está a descobrir........

© Observador